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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

MÃE, TÔ INDO (FASE 3)

A passagem pelo Paraná e Santa Catarina

Vacaria, RS, 09 de dezembro de 2009

Dia de viagem, todo ele.
Não preguei o olho, gostoso andar de rodas com paisagens verdes e belas, pinheiros.
Aproveitei para rever as formas de chegada, tentando entender o porquê dos últimos dois ‘nãos’. Suposições, só. Difícil analisar estando tão dentro, sendo eu, só. Mas percebi o medo presente em mim desde a chegada nos dois últimos locais.

Já chegava perguntando se havia como sair, horário de ônibus. Já chegava perguntando onde podia ficar, antes mesmo de falar mais do trabalho, de sorrir, só e simplesmente sorrir. E parece-me que, caminhando, atraio o que levo de mais forte, o que vai é o que volta. Tomei, assim, uma decisão.
Reta final, último estado, poucos dias até o Natal, prazo máximo de chegada em Santa Cruz do Sul. Se é alegria que quero levar, assim será: essa é a prioridade. Nada de medo, desconfiança minha, o resto é o resto.

Quintana, ao final de seu poema Canção do Dia de Sempre, que trago nas costas de meu vestido verde pintado na casa da minha mãe, escreveu:

 






E sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas
Atiro a rosa dos sonhos nas tuas mãos distraídas.










Sigo ele, tentarei esquecer as possibilidades de ‘nãos’ que sempre hão de nos acompanhar e procurarei o povoado mais difícil de se ter acesso, o mais difícil de sair. Alegria, só. O não é só outro caminho possível, que leva a outros locais, nem piores nem melhores, outros. Foi isso que aprendi, seja o que for será alegre. Estou disposta a tentar. Um brinde!

Lages, SC, 09 de dezembro de 2009

Hoje resolvi pesar as coisas.

MOCHILA: 13 Kg
CARRINHO: 30 Kg

Quarenta e três quilos de bagagem, e eu ainda com meus quarenta e nove e meio.


...

São Joaquim, SC, 08 de dezembro de 2009

Chegando de Pericó quase noite e no frio, onde tem hotel barato, por favor? Ih, só no centro. Você pega essa rua e vai reto, passando o Banco do Brasil.
Juntei o que havia sobrado do dinheiro que levava comigo. Agora, eram 15 reais contando as moedas, merda, hotel mais barato costuma ser 25 reais no mínimo, estou ferrada. Minha cabeça pesava, assim como tudo. Pensei “passo no banco antes”, lembrei de ter tirado todo o dinheiro da última vez, mas lembrei de ter escrito a uns dias atrás um e-mail para minha amiga de infância, tem como emprestar uma grana só por garantia? Emprestada, chegando eu trabalho mais e te pago. Não quis pedir para mãe porque sabia da dificuldade, do quanto andava difícil. E havendo a amiga já oferecido, e sendo quem é, preferi.


Entrei no banco após um tempão caminhando, diabos que não arrumam essas calçadas, só buracos tem. Frio, ainda.
Entrando, catei o cartão na bagagem. Olhar longo para ele, olhar longo para a máquina. E se não tiver? – anoitecia já. O frio aumentava, eu já com todos os casacos, e se não tiver? O crédito do celular acabou há dias, e se?
A máquina pediu o cartão para engolir. Pus. Perguntou a senha, e se, pus. Digitei lentamente, como se adiando o momento. Se ela não tiver depositado vai aparecer só bolinhas de zeros. Frio. Saldo impresso? Não, em tela, mais barato. Lá vem, lá vem.. Ai, apareceu, respirei fundo, abri os olhos.

Do lado dos dois zeros um dois, soltei um sorriso largo, me olharam. “Uffaaa, obrigada!” – disse alto, me olharam mais. Eu nem dei bola, feliz estava com os números que me permitiam dormir em paz essa noite após dois dias de tentativas frustradas, tão cansada de corpo e mente eu estava.

Tirei uma parte, crédito no celular, pão, fui para o hotel. Procurei ainda pelo mais barato, vai lá vem cá. Um banho longo, chuva concentrada nas costas doídas, barulho acompanhando a chuva de fora. Umas linhas traçadas no caderno de folhas brancas. Operadora maravilhosa, permite-me falar quanto quiser por 25 centavos.

“Alô, mãe?! Como estão por aí?”

Maravilhoso ouvir a voz dela. Maravilhoso ouvir o “a-lô” do Dudu, irmão mais novo. Fechei os olhos para falar, queria ver. E vi, e vi.
Bela noite de sonhos, sonhei com irmão mais velho, o Guto. Todos os cobertores do armário em cima de mim.

Pericó, SC, 08 de dezembro de 2009

Saí cedo de Vacas Gordas, fui para o asfalto a esperar o ônibus. Demorou, mas passou. Coração mais tranqüilo, passa em Pericó moço? Passo.






Cheguei no povoado pelas 10h 30min. Um lugar rodeado de morros, um verde vivo, de pintura de crianças. Gado em torno, leve vento ou brisa gelada, eu desde ontem uso as meias que até então eram peso, só, na mochila. Desci e as pessoas ofereciam-me sorrisos, pensei que bom. Indicaram-me ali é a creche, lá em cima a escola. Fui até a creche, vizinha simpática, expliquei à professora, faço apresentação, só preciso de um lugar para ficar, cantinho pode ser. Ela me disse que fosse à diretora da escola, vai lá, seguindo o asfalto, subindo ali.
Fui.





Chegando lá as crianças se aglomeraram, quem é? Quem é? A diretora não estava, a professora (que era outra) trouxe um suco de morango delicioso – para mim o melhor dos sabores – e sugeriu que eu esperasse, ela vem já, foi ali.
Eu era só esperança.

Demorou até chegar, mas veio. Enquanto isso as crianças faziam companhia, vai ficar? Vai apresentar? Disse não sei ainda, se achar um lugar para ficar apresento. Veio uma, fica lá em casa! Disse não é assim, tem que falar com tua mãe. Mãããããããe (só ali descobri que uma das professoras era a mãe dela) – entrou na sala, voltou, a mãe não deixou, disse.
Veio a diretora, fui falar com ela. Eu sou a pessoa menos indicada, não moro aqui, não conheço – ela disse. E eu falei então vou dar uma andada, ver se consigo algo.
Voltei, fui passar em frente à vizinha simpática, achou a escola? Achei, mas as professoras não moram aqui, não consegui. Joguei verde, ela já sabia de minha história, pensei, se for tranqüilo ficar aqui ela vai oferecer. Não, entrou. Então não é – constatei.

Voltei mais, em frente ao lugar onde desci de ônibus encontrei o professor. Perguntou-me se achei algo, algum lugar, eu disse que não. Chamou um senhor, Seu Nelson, o senhor sabe de algum lugar que ela pode ficar? – e tornei a explicar quem era, o quê fazia. Ali em casa é muito pequeno, senão ia para lá. Mas talvez na casa do Seu Mário, o que toma conta da paróquia, vai até na casa, a esposa dele está lá. Era para lá da estrada de asfalto, para lá ainda da escola. Foi comigo até uma parte do caminho, até ajudou-me com alguns passos a carregar o carrinho, como é pesado, dizia. Dali a pouco disse é ali, depois da casa grande de madeira. Deixou-me seguir sozinha, talvez tenha pensado vai que é encrenca, e eu levando na casa dos outros. Voltou ele, eu fui.

Parei em frente. Bom dia! – chamei. Vi movimento no interior. Esperei. Bom dia! – tornei a chamar.
A cabeça de mulher mostrou-se por detrás da cortina durante dois segundos, depois se escondeu no pano beje. Ficou a me espionar por um tempo, só olhos assustados era, e eu sem entender.
Ficamos assim, jogo de pique esconde. Aí eu disse não, medo de mim? Se é assim volto, e sigo para o sul.
Voltei tudo.

Na mesma rua encontrei outra mulher em sua casa com crianças, tentei, sempre deixando brechas para que o silêncio mostrasse o querer dela, e novamente recebi um não pela falta de convite.
Lembrei das chegadas nas outras cidades, o quê há? Qual a diferença? Por que tanto receio aqui, tanto medo? Por que tão difícil dialogar?
Voltei para o lugar onde desci do ônibus, confusa e cabisbaixa com minha coluna gritando. Só tento trazer alegria, não quero gerar medo, nem ser um estorvo, nada de desconfianças. Alegria, só – eu não passaria por tudo isso se não fosse esse o meu querer.
Pensei em apresentar assim, mas não havia como. Nem praça. Nem gente parecendo querer, afora as crianças que já haviam ido embora da escola. Sentei no cordão da calçada – são cordões que sempre me acompanham, desatando meus nós – e fiquei lá, triste escondida por debaixo do casaco. Era meio dia, ônibus chega às 16h 30min. Esperar, só. Recomeçar, só.

Seu Nelson do outro lado da rua viu minha tristeza, veio, espiou pelo casaco, não chore, vem almoçar, vem. Fui, Dona Altair ofereceu-me feijão quente e sorriso, não perguntou nada, só ofereceu. Eu, calada, comi, gosto de comida de mãe. Suco de maracujá. Já haviam comido, Dona Altair ia e vinha da cozinha, Seu Nelson na cadeira de balanço no canto da casa. Dali a pouco veio a senhora a falar: “quer ver uma coisa que me fez chorar? Veio uma vez um homem aqui, ficou ali, do outro lado da rua, passou a noite ali”. Dona Altair pôs a mão na boca, a esconder o encolhimento dos lábios, correram lágrimas de seus olhos claros. “Podia ser um irmão nosso, estava tão frio!!” Contou que fez um café para ele chorando, tão frio – encolheu os ombros – e levou para ele com comida e cobertor, mas estava muito, muito frio. Ela chorava, e eu com ela. Continuou: “perguntei se ele tinha mãe, vai pra casa da tua mãe, homem”. Disse que quando amanheceu ele havia deixado o prato e o cobertor na frente da casa, não estava mais lá.
Dona Altair enxugou as lágrimas, voltou para a cozinha. E dali a minutos já contava, sorridente, pano de prato na mão, do curso de corte e costura que fazia, dos fuxicos, (quer ver?), da paróquia que cuidava também, das vendas Avon, da correria que era sua vida. E gostava!
Quando saiu, pouco antes do curso, saí junto, vou esperar ali, vou ler, logo passa o tempo. Dei um ‘tchau’ para Seu Nelson, um abraço em Dona Altair, muito obrigado aos dois, se cuida menina!

Atravessei a rua.
Escrevi umas três palavras e chegaram duas meninas puxando conversa. Uma de quatro anos, outra de seis. Uma morava em frente, vizinha de seu Nelson.
Conversaram sobre tudo, brincadeiras, músicas, sacolés, apresenta pra nós? Insistiram para que eu mostrasse o nariz, a “bolinha vermelha”. E não há nada como crianças tagarelas, sem que eu perguntasse contaram: “todo mundo achava que você era mendiga!” Espantei-me, é? É. “A minha mãe também achou” – disse a outra, a menor. Pensei em como eu estava vestida, por conta do frio, saia, tênis com meia também colorida, camisa larga – única de mangas longas que eu trazia comigo. Pensei “era só o que faltava, agora me preocupar com isso”. Lembrei da mãe da menina menor que havia vindo pouco antes conversar um pouco comigo, do quanto espantou-se quando eu disse ser formada pela universidade federal, “ah, é?? A federal é difícil de entrar, é concorrida.. você é inteligente, então” – constatava ela. Lembrei de seus olhos de espanto, de suas perguntas. E seguiram as meninas falando, “mas todos acharam você bonita”. Imaginei as conversas, as contradições entre os falantes, os ‘achismos’. Desloquei meu pensamento – não queria imaginar, supor. Recomeçar, só recomeçar.

As meninas depois foram, eu segui com a espera. Vieram alguns homens fazendo também perguntas, não cansa de andar? Canso, às vezes canso. Mas compensa, depois – recordei os olhinhos brilhando dos pequenos, as lições dos avôs e avós.
Dali a pouco frio, eles já tendo ido embora, mais frio. Eu, encolhida, tremia. Doíam as orelhas, ponta de nariz, bochechas. Doía a boca e as polpas dos dedos que eu tentava esconder do vento brincalhão que se divertia com minha tentativa imóvel de fuga.

E nada do ônibus, minutos dilatados.
E começou a chover, escondi tudo em um pequeno telhado ao lado, e mais chuva, e mais vento, e nada de ônibus, passou a hora, já. Minutos vagarosos escorriam pelos pinheiros. Tempo. Tempo. Tempo.
Só bem depois veio o ônibus, muito atrasado, entrei. Fiquei longos minutos ainda a tremer no ar quente e agora confortável. Tempo. Tempo. Até acalmar as extremidades frias. Até acalmar o medo que me causava o medo.

Cada vez está mais difícil. Achei que o início seria o pior, mas é agora que temo mais. Porque há agora comigo o saber de que posso não ser aceita, de que podem não ter coragem de me acolher, de que há detalhes demais nos primeiros encontros que devo cuidar. Hoje sei mais e isso deixa-me insegura, o contrário do que supus. Há só vontade, ainda, e muita. E esperança. Mas dói-me a coluna, as mãos já com numerosos calos, as pernas. Mas dói-me o medo dos outros, as desconfianças, as suposições tricotadas sempre do outro lado das ruas.

Já estou perto, e que bom. Está ficando pesado. E, infelizmente, está deixando de ser simples.


Pericó

Vacas Gordas, SC, 07 de dezembro de 2009



Novamente povoado pequeno, sem crianças, estrada longa de chão a derrubar a bagagem e choro, hoje no banheiro.

Saí de Floripa às 12h, era o horário mais cedo para Urubici, próximo ao povoado eleito no mapa, desta vez, pelo nome: Mundo Novo. Há de ser novo, há de ser.
No caminho, na parada, conversei com o motorista. Ele disse que não indicava este povoado, turístico, só tinha hotel caro e restaurante. Disse que fosse para Urubici, turístico também, mas maior e talvez mais barato. E bonito, natureza bela. O ônibus foi chegando. Cidade não acabava, pousadas e hotéis bonitas/as, pensei ai. Deve ser 40 reais a diária dos hotéis baratos, disse o moço que viajava também no ônibus. Tornei a pensar um ai todo cheio de pingos de “is”.

Não havia rodoviária, desci, tornei a falar com o motorista, não há outro lugar, um menor, um povoado? Sugeriu Vacas Gordas. Passa lá agora? Passo. Corri para comprar a passagem, vou em frente.
O motorista, atencioso, deixou-me na beira do asfalto, é ali, seguindo esta estradinha. Você falou pequeno, aqui é pequeno! Tem uma pousadinha no fim da rua, o pessoal te informa. Eu disse tá! Mas a agonia e o medo não passavam, acompanharam-me durante todo o percurso, como em Dourados, como em São João da Graciosa, nas vésperas. É algo que avisa e ainda não sei como é. É algo que se confunde com o medo rotineiro, mas dói um pouco mais.





Na estrada de chão de Vacas Gordas, retrato quase fiel da experiência de Minas, uma só rua. Só que sem pessoas. Achei apenas uma mulher na janela de madeira. Foi muito, muito simpática. Acalentou-me um pouco com seu sorriso, e paciência em explicar, e em querer saber. Não tem mesmo crianças por aqui, vai para Pericó, lá é maior, é bom. Perguntei, dá hoje? Não, amanhã de manhã, só.
Segui a estrada. Frio.







Tudo que havia de calor lá, há de frio aqui, serra é.
Encontrei a pousada, uma casa de madeira amarela, a última da rua, com boca de leão amarela na frente. Encontrei o dono, expliquei, levou-me para dentro para falar à mulher. Falou para sentar. Expliquei para ela, nenhuma expressão de felicidade, deve ter dito “maluquice” lá dentro dela. Silêncio. Absoluto. Mais silêncio. Tornei a perguntar do preço, porque ainda havia às 18h um ônibus retornando, sabia comigo. Ela disse 20, com jantar e café. Eu concordei com a cabeça, disse que ficaria até amanhã. Mais silêncio, nenhum movimento. Até que foi arrumar o quarto, levamos, eu e o marido, minha bagagem para lá.

Pouco depois falou meio baixo, faço 50 com janta, acho que ela deve ter pensado maior, digo, melhor. Acho que dentro dela se arrependeu do preço, disse posso conseguir mais, e resolveu tentar. Eu disse não tenho, e realmente não tenho, há 40 comigo e preciso pagar o ônibus, hoje me liguei do absurdo de andar com tão pouco. Ela pensou novamente, a deixar o silêncio, rei da casa, retornar. E dali a pouco disse quanto tem? Eu disse 40, mas preciso para voltar. Ela falou que ia fazer uma janta mais simples, tudo bem, qualquer coisa se for ruim por 20 não precisa de janta, só dormir. Ela disse que tudo bem, faria algo, não tem problema.
Eu fui para o quarto com o coração apertado da frieza, escondi-me no banheiro a chorar, no espelho meus olhos clamavam pela minha mãe, tia, algum abraço. No espelho quis novamente, por segundos, parar com tudo, seguir reto. Mas não, mas não.

Enxuguei as lágrimas.
Assuei o nariz.
Lembrei das felicidades que andam comigo, com suas pegadas bem mais fortes, rastros.
Lembrei das pessoas, das pessoas que conheci e de tudo que ainda havia para conhecer.
Lembrei dos amigos e amigas de Salvador, da força que me deram na última apresentação por lá.
E saí.

Pouco depois ela chamou para tomar um café.
Aí em seguida cansei do silêncio que corrompia a casa e resolvi dar uma volta, casaco, sentei em uma ponte e tenho-me a escrever.


Passou dois senhores por aqui, um de cada vez. Conversaram comigo atentamente, um disse haver criança sim, só eu tenho dois netos. Se juntasse tudo daria, pena já ser 19h, pena a mãe não estar aqui para ajudar a organizar. Senti nele interesse, junta os adultos para ver também, né?! É bom, é bom! - disse ele.
Amanhã o ônibus para Pericó passa às 9h, único. Se achasse alguma casa para ficar de graça tentaria reunir os pequenos, mas tempo não há. E nas paredes onde estou não quero ficar mais. Nem posso, nem posso.
Meus dedos doem do frio, voltarei para o silêncio.
Amanhã é outro dia, hei de encontrar sol e canções de sorrisos para seguir.

MESMO DIA, NOITE

Fez batatas fritas, adoro batatas fritas.
Comida gostosa, comemos juntos os três. Mas há algo de não simpatia d’ela comigo, de mim com ela.
Trocamos algumas palavras como quem liga um rádio para espantar o vazio. E depois da janta ofereci-me para lavar a louça, ela disse não precisa, mas foi trazendo pratos e talheres e bandejas e panelas infinitas para eu lavar.
Ao final, juro que sem querer, quebrei um copo. Leve batida na xícara, realmente leve, mas o suficiente para se partir. “Sorte pra ti”, disse ela, sorriso no rosto.

Os objetos devem sentir a vibração do que em torno está, só pode ser.

Florianópolis, SC, 06 de dezembro de 2009

SHOW DO RAPPA

Ia sair ontem, já que não consegui dinheiro vou seguir, percebo que nos povoados consigo mais verba que aqui. E além disso os lugares pequenos correspondem mais ao que quero nesse momento, mais.
Aí ontem soube do show do Rappa de hoje. Gosto do Rappa, gosto dos shows deles cobertos de adrenalina e pulos. Há tempos iam para Salvador e eu não podia porque era caro porque era longe porque não dava. É amanhã, disseram. De graça. Pelo Natal.

Falei dois dias a mais, espero/não espero? Um dia de cada vez, um de cada, resolvi esperar. E fui de ônibus cheio sem nem saber como voltar.
Ôh ôh ôh ôô, my brother!

Chegaram atrasados, o grupo pegou engarrafamento (foi-se o tempo em que Floripa não engarrafava). E um bando de gente, e uma árvore enorme de Natal que custou à prefeitura – digo, digo, aos bolsos dos manezinhos – mais de três milhões e setecentos mil reais. Rendeu protestos. Rede nacional. Rendeu vergonhas.

Caçando ilusões o grupo chegou.
E eu a me infiltrar nas frestas de gente. E eu a caçar. E nada, e nada.
Dali a pouco desisti das gentes, da procura, das paqueras. Dali a pouco era só pulos na imensidão, no “mar de gente”, e minhas pernas a resistir aos altos e sorrateiros saltos de quem tem pressa de viver e pula junto, para ir mais alto.

Em súplica cearense uma revelação, quero fazer desta a minha vida, preciso. “Pedi pra chover, mas chover de mansinho..”, quero me embrenhar na seca pra sentir sede junto, quero conhecer o lado de lá. Fiquei emocionada ao olhar a imensidão e o cabelo de gotas de orvalho do Falcão, “óh, Senhor”.
Show acabado saí com a boiada, era eu boi também, e nem me importava para onde me levavam os cavalos vestidos de cinza e sirenes. Só lá na frente fui perguntar, como faço para ir para lá? E chamaram-me no ponto, Genifer, levei um susto, aqui? Parceiro de formatura de Salvador, veio apresentar com um grupo, vou-me embora amanhã. Eu também, disse. Eles voando, rápido, eu pelo chão.

Pouco depois tive a sorte de ser encontrada por uma senhora e sua filha que iam também em direção à lagoa, vamos até o terminal a pé, lá tem ônibus. E fomos, e esperamos, e embarcamos no ‘pernoitão’.
Até chegar em casa foi um trajeto longo, ônibus quase cheio, barulho. Até chegar em casa foi sono intercalado com sonho. Mas houve a chegada, e a cama para unir o querer meu com o do colchão, os ossos e a espuma a se complementar.

QUANDO SAÍ



Quando saí havia pessoas em torno, vá mas tome cuidado, te amamos, se cuide.
Quando saí havia certeza de querer, mas dúvida no poder.

Saí assim, marcando, será dia tal para não deixar de ser.
Saí com despedidas sorridentes, não com lágrimas.

Quando saí havia 340 reais no meu bolso, destes, 300 emprestados.
Quando saí havia promessa de pagamento de um trabalho, entranãoentra na conta.

Tinha famílias nas extremidades:
No nordeste família escolhida
No sul família gerada
e ambas amadas e amáveis.

Hoje reconheço e sinto famílias,
redes no percurso,
e qualquer pessoa como possibilidade familiar.
Porque família não é lar, acolhimento mútuo e confiança?

E se do dinheiro todo pouco resta,
se não tenho ainda uma fórmula para prosseguir, e bem,
fazendo desta a minha vida toda,

Sobra-me carinho, e amor, peneira grossa de possibilidades intensas.

Florianópolis, SC, 05 de dezembro de 2009

A água cintila no branco da luz.
(E que espécie de peixe é esse que brinca de se esconder na superfície?)

Lá fora os carros correm como labaredas pela ponte,
enquanto que aqui dentro,
aqui, em mim,
o estar só é mais do que tranqüilidade,
é moradia.

Lá fora, neste banco que tenho-me sentada,
uma imensidão de formigas formigam na madeira
E aqui eu sou só ternura.

Hoje tomei consciência de que estou, em minha vida, exatamente onde e como eu queria estar.
Com acréscimos, com acréscimos.
E estando, tudo que sinto é uma imensidão de possibilidades, de caminhos de vida,
e nenhuma agonia.

Aqui dentro sou só jardim de infância, aconchego.
Aqui só cabe um dia de cada vez,
e vivo-o inteira
sem contudo deixar de sonhar e batalhar por um futuro.

Aqui d’onde estou posso ver minha alma faceira,
a andar de bicicleta em estradas sem fim, cabelos ao vento.

Aqui em mim não há teto,
só céu,
clarões de amanhecer.

RECEITAS GOSTOSAS (parte 2)

MOUSSE DE MARACUJÁ DA TIA ANGELA
4 maracujás
1 lata de leite condensado
1 caixa de creme de leite

Juntar tudo e pôr na geladeira (difícil, hein?!)
* O maracujá pode ser substituído por limão, morango batido no liqui, etc. Mas com maracujá eu garanto!


MOLHO DE BAUNILHA DA TIA ANGELA
(ideal para ser consumido junto com o mousse de maracujá!)

½ litro de leite integral
3 colheres de sopa de açúcar
1 gema de ovo
1 colher de sopa cheia de maizena
½ colher de cafezinho de baunilha líquida
Um pouco de água

Colocar para ferver o leite com o açúcar. À parte, colocar em uma xícara a gema de ovo, a maizena e um pouco de água (aproximadamente 4 colheres) e misturar. Quando o leite estiver quase fervendo, colocar com um coador a outra mistura, mexendo sempre. Se estiver muito líquido, acrescentar um pouco mais de maisena desmanchada com água (½ colher de cafezinho). Desligar o fogo, mexer até esfriar. Acrescentar a essência de baunilha líquida.



PANQUECAS DE BATATA DA PAULA E DO ALÊ
(para duas pessoas famintas)

1 ovo
5 batatas grandes
Sal ou tempero a gosto

Descascar as batatas e ralá-las em dois diferentes tamanhos (fina e grossa). Juntar com ovo e sal. Jogar fora a água que sai das batatas. Em uma frigideira, um pouco de óleo bem espalhado. Com o garfo colocar a batata, camada grossa. Virar, dourar e servir!
*Essa é uma das receitas mais rápidas e saborosas que aprendi no caminho. Vale a pena conferir, também!

Florianópolis, SC, de 30 de novembro a 05 de dezembro de 2009

A PROCURA, A ESPERA, O DINHEIRO

Pensei preciso de dinheiro. Pensei vou trabalhar mais. Pensei onde? Praças? Não, as pessoas durante a semana aqui vão a praias, não a praças. Pensei ‘Re-bolando..’ na praia? Seria interessante. Lembrei da areia fina, do aparelho de som, das malas. Pensei, não! Pensei ‘Mundo Miúdo’ na praia? Lembrei da areia, da caixinha de luz que opero no pé, dedão todo cheio de grãos, vai estragar o que ainda resta. Pensei em outros lugares. Pensei em escolas. Bingo, escolas! Um ou dois reais por aluno/a ou contribuição espontânea, consigo grana para terminar a jornada. Perguntei, a Paula também ofereceu ajuda. Alguns nomes, lugares, fico em Floripa para ir atrás. Posso Paula? Posso Alê? Claro, fica.

E fui tentar, maleta em punho, protetor solar no rosto e tattoo, me encaro no espelho do banheiro antes de sair e repito, olhando nos olhos: tudo bem se não der certo, tudo bem se disserem não. E fui, sapato colorido já furou, vou em frente.

Todas as escolas que passei disseram já ter programação para o Natal, ai, daqui a pouco já é Natal. E assim, para essa semana, muito em cima, não dá, tenta lá, tenta lá. Fui tentando, ligando, crédito de celular vai como água, não dá, fica para a próxima.


A semana toda assim. Deu para arrumar a caixinha, outras possibilidades de luz sem gasto e sem perder a qualidade. Deu para pôr em dia os escritos, passar a limpo, enviar os desenhos das crianças de Barra do Sul, mandar as fotos. Deu para ler Bachelard, há tempos querendo eu estava, achado na estante de livros da Paula entre títulos sedutores. Deu para arrumar o braço do boneco, algo que só poderia ser feito com calma, aqui foi o lugar ideal. Deu para tirar fotos e fazer videozinhos da vovó Gertrudes no canal da Fortaleza da Barra da Lagoa e na luz da vela, no dia em que reinou o escuro (e os ventos levaram a luz que havia no interior das lâmpadas e das geladeiras). Deu para fazer a receita da sobremesa que aprendi com a tia Ângela, elogiada por todos, e para aprender mais receitas temperadas e deliciosas da Paula e do Alê, casal tão querido e bonito. Deu para ir na praia com eles, uma vez só, mas deu. É, e deu para me debater tentando obter boas idéias para conseguir dinheiro, tentar outras alternativas, se é meu trabalho devia ter mais opções, afinal vivo ou não disto?


Apresentei o ‘Mundo Miúdo’ em bares. Consegui pouco, passavam, olhavam a caixa, mas não perguntavam o quê era, e nas mesas diziam “não” sem nem ouvir. Poucos trocados tenho, uns 50 reais para terminar, descontando a grana que quero deixar aqui na casa.
Pergunto-me, deitada no colchão azul, se é possível viver disto, viajando assim de mochila e me sustentando. Se não houvesse o dinheiro inicial que juntei acho que não. Mas qual é o jeito? Sempre há uma maneira quando se quer, aqui, qual será?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

SEMINÁRIO DE COMICIDADE

Anjos do Picadeiro 8, mesa de debates.


Primeira turma: Biriba, Biribinha, Serelepe e Bebé, representantes de peso de circo-teatros de há décadas que percorrem cidades do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Anos de histórias em minutos de síntese. Causos. Famílias provenientes da mesma raiz.

Depois a segunda mesa do dia, a quarta do Encontro. Juliane – alguém lembra o sobrenome?), doutora que estudou o palhaço. Gláucia Grigolo e Renato Turnes, cineastas que fizeram um trabalho de registro com o circo do Biriba. Ermínia Silva, pesquisadora referência do circo no Brasil, que respeito muito. E eu.
Estava nervosa, muito. Não sabia como seria isso, vim para trocar idéias, mas não tinha nem noção de como a recepção ao trabalho se daria. Chegando a minha vez, comecei.
Havia pensado em uma sequência para falar, e fui.


Não consegui falar direito. De início, falava e parecia que ninguém ouvia, baixavam as cabeças, só agora penso “estavam escrevendo?”. Não sei. Sei que fiquei ainda mais nervosa com as cabeças baixas, por quê vim? Tentando combater ou diminuir o nervosismo, fixei os olhos em duas ou três pessoas que vi que me olhavam interessados – uma fui ver mais tarde (sem a luz da frente) era Ana Luísa Cardoso, referência, para mim, de palhaça no Brasil. Olhava muito para ela porque me respondia alegremente com o olhar, e isso me dava força.

Dali a pouco engasguei. Difícil falar de algo que está tão vivo em mim, difícil distanciar. Respirei, bebi a água que me deram. Tentei novamente, vou conseguir, vou conseguir.
Soube dos seminários no último dia de inscrição nos mesmos, no blog do Anjos do Picadeiro tentando descobrir os dias certos do evento. Achando-os [os seminários], pensei em me inscrever para conversar sobre o projeto, achei que teria muitas certezas nessa etapa do percurso e poderia contar as ‘grandes novas’. Engano doce o meu, não tinha, nem tenho. Então, já na mesa, resolvi relatar, apenas, fragmentos do vivido. E relembrar Dona Bil, Dona Diu, Seu Betinho, Dona Maria, Arlete, dentre tantos, foi demais para mim. Caí em lágrimas. Mostrei fotos.E concluí.


A reação ao trabalho foi das melhores, mais do que o esperado. Aplausos de pé, coisa que não vi em outras mesas, tímida fiquei. E depois era Ermínia quem falava na mesa de mim, que era circo o quê eu fazia. Mas assim, sem lona? Sem família, sem várias pessoas, acrobatas, bilheteria? Disse que sim, que a essência é a mesma. E apresentou o site CIRCONTEÚDO, um local maravilhoso de trocas online que disponibiliza todos os tipos de materiais que se relacionam ao circo, palhaços, às pesquisas relacionadas à área. [www.circonteudo.com.br]. E depois, parabéns pelo trabalho, justificou a minha vinda para cá – era alguém do público quem falava, alguém que mais tarde se tornou um grande amigo, o mundo é bom, Sebastião! E outras pessoas, que legal, que bacana o projeto, o trabalho.




 Fiquei contente, embora gostaria de ter ouvido mais sugestões, gente falando das possíveis falhas, deixando-me questionamentos, diálogos para ambos os lados da questão. Mas tudo bem, saí feliz, pessoas se aproximaram, e isso foi muito bom!

Não nego que, antes de falar, pensei no que pensariam eles, o ‘público’ do seminário, sobre o eu-palhaça, tão nova na área, afora as falas de “parabéns pela coragem”. Já vi muitos grupos que, se apresentando no interior, não se importam muito com a qualidade do que apresentam, lá nunca se viu nada, posso levar qualquer coisa que gostam. Nunca concordei com essas falas e pensamento. E não queria que pensassem como se eu fizesse isso, como se eu levasse qualquer coisa, não tentasse levar o melhor para cada povoado.




Mas depois relaxei. Só eu ali era capaz de saber das relações, das trocas, do que dava e não certo, nada do que dissesse ia mudar o passado de experiências vivas, nem o que pesavam, e nem precisava.
 Isso é ego, isso é ego meu, pensei, querer que saibam que é bom. O quê sei eu se é realmente bom ou não, afora minha visão meio torta? Engoli e fui.

Florianópolis, SC, 30 de novembro de 2009

A CHEGADA EM FLORIPA, O ANJOS DO PICADEIRO 8


O Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro acontece anualmente no Brasil, organizado pelo Teatro de Anônimo, um grupo de pessoas/palhaços dispostos a trabalhar, e muito, pelas trocas entre grupos e artistas independentes de todo o mundo que se dedicam à arte do/a palhaço/a. “É nós, é a gente, só não pode ser eles” é uma fala comum saída da boca de um de seus componentes, o João.

O Encontro acontece em grandes cidades, sendo intercalado: um ano acontece no Rio de Janeiro – onde é a sede do grupo, um ano em outra capital, um ano no Rio, um em outra, etc. Em 2007 foi em Salvador, momento inspirador para mim, que pude conhecer e acompanhar de perto tantos mestres. E esse ano, 2009, escolheram a capital Florianópolis para sediar o encontro.

Ah, felicidade extrema a minha em saber que poderia acompanhar, e que a época condizia com o período de minha passagem pelo estado. E alívio ao lembrar que uma prima minha, a Paula, mora aqui há 12 anos, pessoa querida que sempre admirei com suas belas artes em todos os cantos. Falei com ela. Pode ficar aqui com a gente, sim, vem! Mora com o namorado, Alexandre. Não o conhecia, pessoa também querida, calmo, sorridente, surfista. Ficando na casa deles, despesas a menos, daria para participar.


No primeiro dia no Encontro havia as oficinas. Chegando no local indicado encontrei, dentre outras pessoas, o Diego, calça xadrez, malabarista, deve saber se é por aqui. Coincidentemente Santa Cruzense. Aguardava, também. E foram chegando mais pessoas, conversas iniciais, de onde vens? Muitos gaúchos, uma pernambucana, Campinas, dois do Mato Grosso, uma espanhola animada e sua companheira de mochila Anne, Chapecó, pessoas que fui reconhecendo como amigos. Dizem isso, né?! Que amigo não se faz, se reconhece. E depois chegou o Álvaro Assad, o oficineiro, do grupo Etc e Tal do RJ.

Álvaro é mímico. É todo caretas, e no primeiro dia já afirmou “não gosto de palhaço!” Como rendeu essa afirmação, é piada, não é, o que quero dizer é que não gosto de palhaço sem energia, aqueles que colocam o nariz e ficam assim [cara de idiota, vendo tudo em torno e não fazendo nada]. Álvaro assusta quem leva as palavras a sério demais, é um brincalhão com pinta de durão – (e eu que não queria rimar não encontrei outra definição melhor..)

A oficina, ao todo três dias, foi inspiradora. Aprendam a técnica, e depois apliquem onde quiser. Andar no lugar, balões fixos em eixos imaginários. E, durante todo o tempo, Álvaro a brincar com o espaço vazio, fazendo brotar objetos inteiros, cenários detalhados, só com movimentos meticulosamente traçados no e do corpo.

No início, ainda, fiquei atenta para as pessoas, em busca de olhos conhecidos. Procurei por palhaços/as baianos/as, alguém aí? Procurei pelo meu messiê Casali que tanto amo, ele talvez viria.. Não veio, não pôde, cancelou a apresentação. Disse “umpf” e guardei-o de volta em meu peito, canto que é dele.

Houve espetáculos, dos mais diversos. Inspirações para mais e para menos – bom também saber o quê não se quer ser. Ou não se quer propor, nunca se sabe o quê se é, a recepção é única em cada espectador, penso eu. Mas bom ver, só ver, para supor. Apresentações incríveis. Apresentações mornas. Apresentações boas. E sigo eu com minhas tentativas.

APRESENTAÇÕES EM FLORIPA, 29 de novembro e 6 de dezembro de 2009

Em Florianópolis há uma lei. Várias. Natural.
Em Florianópolis há uma lei que proíbe. Várias. Natural.
Em Florianópolis há uma lei que proíbe artistas de rua de trabalhar... Cuma??

Pois é, há. Não se pode apresentar em praças e parques públicos, nem em sinaleiras, o que fez com que vários artistas argentinos e daqui fossem exercer sua profissão em outras cidades, deixando de embelezar e ‘articular’ – uma leve brincadeira gramatical minha que deveria levar a letra ‘e’ ao invés da ‘i’ – a capital das belas praias. Decisão tomada. Só nos resta denunciar, achar um absurdo e apresentar nas praças, tentando levantar discussão.
No dia 30 de novembro, tendo chegado dois dias antes do início do Encontro por erro de cálculo, fomos – Paula, Alê e eu – em uma feirinha de arte aberta, aqui na Praça da Lagoa. Estava levemente movimentada. Céu-quase-chuva, gente que vai e vem, está um bom dia para apresentar. E havia outro grupo, vocês vão apresentar agora? Sim. Então eu espero e apresento depois.
Esperei e, depois, apresentei.
Apresentação razoável, mais para mais do que para menos. Poderia ser melhor, mas foi o que foi. Um bom chapéu, crianças querendo fotos, guardo as coisas e vamos, rumo a uma comida deliciosa feita pela namorada do irmão da minha prima.

Ops. Ele é meu primo. Rumo a uma comida deliciosa feita pela namorada de meu primo!

No último dia 6 resolvi repetir a dose. Disse lá é bom, estou precisando do dinheiro do chapéu, vai ser legal. Fui para a feirinha.

Havia sol, havia gente, havia de ser cedo para que eu não perdesse o espetáculo das 18 horas, sendo hoje o último dia do Encontro. Havia índios. Dançando. Penas, CDs a venda, damos um intervalo e aí você apresenta. Quis aproveitar a sombra, única da praça, ao lado de onde apresentavam os índios. E aí arrumei tudo em absoluto silêncio e sem puxar foco, para que não deixassem – o público – de assistir a eles e suas belas canções. Um erro. Mais tarde vi, um grande erro.
Não me comunicando com o público em um primeiro momento, não consegui mais diálogo. Pulei etapas, aquelas que aprendi com o mestre Chacovachi: Pré-Convocatória, Convocatória, Farsa do Começo, Números.. Pulei etapas que não se pulam, senão não existiriam. E aí foi uma sucessão de fracassos sem domínio, um conjunto de ações tentando conseguir, tentando alcançar a energia, mas tentando sozinha, o público a olhar sem emoção. Foi terrível, senti-me derrotada e com vergonha, e sei que não há nada pior para quem se apresenta na rua. Mas não sabia lidar, não sei.. Não sei ainda na prática como é isso que me disse Chaco no último encontro, de que “se pode ser qualquer coisa”. Não sei como é isso com músicas fechadas, com som, sozinha. Não sei como é isso com uma plaquinha de ‘fim’, deve ela vir de outra forma se não a que criei? Sim, hoje penso que sim. Mas no dia não consegui abandonar meu cronograma, e segui sem saber lidar com o imprevisto, com o improviso, com o incerto.

Havia um amigo comigo nesse dia, de Itajaí: o Charles. Ele filmou, esteve lá. E felizmente não me mentiu sobre a apresentação, falando frases preciosas escondidas em sua forma tímida de dizer, “os números são bons, mas os números são os números: só servem para se conseguir uma relação com o público. Se não tem relação..” E não tinha, e não tinha.


Seguimos para o Encontro, ônibus cheio, eu tropeçando em vergonhas. Perdemos a apresentação das 18 horas, maldita hora que optei por apresentar hoje, desculpe, você perdeu a apresentação deles por conta da minha, não, eu já vi outras vezes. Foi uma excelente companhia a dele! Encontramos Sebastião, encontramos outros e outras queridos e queridas.
Demorei e demoro ainda a perceber aonde mover, como melhorar. Mas haverá de existir o dia em que as palavras de Chaco virarão mais do que frases, sentidas serão.

AMOR, SUBSTANTIVO PLURAL (ou TROCAS, SEXO E ROCK`N ROLL)



Não creio mais em amor único.
Ainda assim, tenho um grande amor.
Mas não é um só porque há grande espaço para as vontades, os quereres, os sentimentos.
E nada substitui nada porque não é preciso excluir para incluir.
Não, não é preciso excluir para incluir. Aí cai por terra, para mim, qualquer idéia equivocada de traição.
Guardo em mim grandes amores, em locais diferentes, com faces das mais diversas, pensamentos variados, magros, gordos, com ou sem pintas, com muita ou pouca idade.
E cada um tem seu lugar.
Nenhum tira os demais de mim.

Tenho há mais de dois anos um grande companheiro e amor.
Vivemos juntos, nos amamos tanto ou mais que os casais das praças, os tradicionais. Perto ou longe, estamos juntos. Mas nunca deixamos de ser ou fazer nada por essa união. Justamente por nos amarmos, e querermos tão bem um ao outro. Porque não há substituições. Porque mais importante que estarmos um com o outro é estarmos onde quisermos estar, e bem. Se há como unir as duas coisas, maravilha! Mas, por sermos dois, temos vontades e sonhos variados, a serem seguidos. E seguimos. Juntos, segundo nosso conceito.
(Torço por ele e carrego-o como quem leva consigo tesouro de vó, com acréscimo de paixão).

Aqui encontrei paixões. Pessoas lindas, de todos os ângulos.
Aqui tive vontades e aproveitei momentos que, de uma hora para outra, tornaram-se deliciosos. Beijei, dei e recebi abraços quentes. E ontem passei a noite acompanhada, bela noite de carícias e força conjunta.

Acabou-se o ‘Anjos’, vão-se embora as pessoas, os e as mestres, os encontros. Vai-se embora o dia, a semana, as mesas, as trocas presenciais com gente que fala a mesma língua, ainda que de sotaques ou origens diferentes. Fica só a lembrança, companheira fiel. Fica só o sentimento, presença certa. E sigamos em frente, caçando bons momentos de amor, esse substantivo plural, doce e permissível, sempre.

Florianópolis, SC, 28 de novembro de 2009

Acontecem coisas estranhas.

Hoje acordei, olhei a maleta, assustei-me, está acabando o dinheiro, há muito, muito pouco. Pensei MERDA, ou peço emprestado para seguir ou trabalho mais, não há mais como evitar. Fui para a lona do Anjos de ônibus a pensar: fico mais um tempo e faço em escolas, aproveito o fato da Paula conhecer a cidade, ser professora, a hospedagem, faço dinheiro, será que consigo?
Cheguei na lona, assisti a um espetáculo, o próximo é de Chacovachi, grande mestre. Sentei-me. (Tempo). Início, apreciei, aprendi, me encantei.

Passou o chapéu e, enquanto falava, ocorreu-me de pela primeira vez não tirar, automaticamente, algumas moedas do bolso furado da pochete. Ocorreu-me de pensar sobre o dinheiro, de não pagar me livrando das moedas como um descargo de consciência, um “pronto, paguei!” Ocorreu-me de não pagar, de ouvir as palavras de Chaco para que sejássemos sinceros. Tinha algumas moedas, poucas descontando o dinheiro do ônibus de volta e de um possível lanche para passar o dia. Mas aquilo não era esmola, ele merecia mais, e vi que não podia. Então não dei nada. E sentida fiquei, querendo ter para dar. Aí segui a fala de outro mestre, este de Salvador: engole, e segue.

No final Chaco juntou o dinheiro em um saco. Era um público enorme! Disse que não precisava, que estava sendo pago, que passava porque era importante na rua, porque há os que vivem disto. Aí então seguiu com seus atos inesperados: chamou no centro todos os que viviam da arte de rua.
Em segundos minha cabeça deu nós grandiosos: sou ou não sou, afinal, artista de rua? O quê é ser, viver disto? E não vivo eu disto? Pois sim, agora, nos últimos meses, vivo. Então, não sou? Pois sou. Mas não vou, pensei, tenho vergonha, não preciso que saibam, me mostrar assim aos demais, como quem quer aparecer.. Aí ao lado me apontaram, vai, tem que ir. Vai, você é. Pois sou – pensei. E qual o problema, porque a vergonha, porque é pouco o tempo? Mas sempre haverá de ter o pouco para que o muito se estabeleça, não? Fui, cabisbaixa ainda.

Chaco entregou o saco de dinheiro para que dividíssemos, igualmente. Aí quase chorei, emoções fortes perseguem meus dias, preciso,não há como negar. Não sei ainda como fazer dinheiro suficiente na estrada, estou aprendendo. Engoli o seco que contrastava com meus olhos, úmidos. Não, não vou pedir dinheiro emprestado, é esta a minha profissão, devo arcar com a dor e alegria de tê-la.
Terminado, abracei Chaco, não consegui falar muito. Não era só o dinheiro, era ele, sempre, incentivando, sendo.

E frente a ele e após uma apresentação onde várias ações saíam visivelmente do controle – o que chamariam de ‘erro’ que não colabora com o espetáculo – veio-me uma pergunta, e a fiz. “Quando as coisas vão em um ritmo de não dar certo, não tens medo de dar errado, de não conseguir finalizar os números?” Chaco respondeu-me prontamente que há várias possibilidades, e não há como ter erros porque pode ser qualquer coisa, é rua. Há erros se você considera acertos. Disse-me que por poder acabar de qualquer jeito, não há o que temer. As coisas simplesmente são como são.

Foi dar uma entrevista, e eu fiquei. Fiquei com minha cabeça em febre pensando se um dia conseguiria considerar isto, de fato e à vera, em cena.
Aí veio uma moça, crachá, oi, a Julie e o Avner querem ver o Mundo Miúdo. Disse.. como?? Eles souberam do trabalho, e querem ver. Estremeci. Disse que a caixa havia ficado em casa, que ia trazer, mas que essa manhã havia passado horas a tentar consertar o dimmer e os led’s que queimaram na última apresentação, não tendo sucesso. Não estava apresentando assim porque prejudicava a qualidade, não queria, seja para quem fosse, e por isso não havia trazido ainda nem apresentado desde o ocorrido. Ela perguntou amanhã talvez, eu disse que sim. Lembrei das horas de tentativa hoje, das lágrimas, do por quê logo agora que eu poderia apresentar no Anjos e conseguir uma grana – pensamentos destes dias. Pensei “passo a noite a consertar, se preciso, vou conseguir, é o Avner! Se foi.
Fiquei por ali, perambulando por sob a lona. Dali a pouco vieram, os dois, Avner e Julie, para falar comigo. Pediram para ver, disse ai. Lembrei-me da vovó que eu carregava no bolso. Tirei, arrumei entre os dedos e mostrei.


Espantei-me com o espanto deles.
Foram momentos preciosos para mim! Pediram para filmar, tirar fotos. Eles pedem? Não, era eu quem deveria pedir! Fiz o mesmo. E, ao final, espantada ouvi do Avner, ao elogiá-lo: “sim, fazemos a mesma coisa” – referindo-se ao meu trabalho, à vovó. Fazemos a mesma coisa correu em minhas entranhas. Fazemos a mesma coisa.. fazemos a mesma coisa.. Ainda agora penso sobre isso, comovida.

Florianópolis, SC, 27 de novembro de 2009

Nem sei se é dor, se é medo, se cansa.
Nem sei se o que sinto explode ou alisa.
Só sei do silêncio. Do silêncio.

Foi uma hora e meia assim, sem falas. Sem gritos. Nem grunhidos. No silêncio.
Uma hora e meia de muitas palmas, duas músicas, e silêncios tagarelas.
E meu coração transborda como chama que não quer apagar e permanece a esquentar o pote de barro, em meio às cinzas e aos restos do que já não é. Ou é, porque em mim está.
Tenho-me não temerosa, creio. Assustada, só. E explodindo em sonhos.

Ali ao lado vendem sapatos, chapéus, livros, narizes.
Ali ao lado vendem lanches, bonecos e chaveiros de sapato de palhaço
(e eu que sempre quis ter um!)
Com as mãos na mala quase vazia de dinheiro
passo reto.
Tenho a passar reto o que se determina não querer ser. Ou não puder ser, ou não poder.
Tenho-me aqui sentada na arquibancada quase vazia, em uma quase escuridão, sem expressão diante do espanto.

Tenho-me aqui transbordando, tendo comprado todos os truques, os números, os risos, os mistérios
de um tal de senhor Avner, barba branca, doçura, um menino,
que apresentou-se esta noite no ‘Anjos’ para um público numeroso e diversificado. Eu lá no meio. E ele a desenhar no cenário limpo canções de leveza, olhares de possível e de simplicidade em se ser.

Tenho-me aqui agora quieta, dando piruetas em mim.
E em saltos permito-me ser um pouquinho
do silêncio absoluto desta noite bordada de belo.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Barra do Sul, SC, 21 de novembro de 2009

Celso está por aqui, namorado de Zila que trabalha em Joinvile, pararam-no na rua, a palhaça ainda está na sua casa? Como?? – ele respondeu às crianças. Pessoa muito querida e engraçada, “meio surdo” que, por conta dos remédios, se contenta em tomar cervejas sem álcool, eu bebo, bebo, e não fico tonto! Aí bebo mais e minha barriga dói, reclama.


Deu tempo, hoje ainda, de conhecer os barcos artesanais daqui. Grandes e feitos à mão pelos pescadores, relíquias de há anos no rio que beija o mar. Fui de bicicleta, eu e Cássio. E lembrei-me de ontem, quando andei sozinha pela primeira vez aqui, de bicicleta também.
Estava na escola. Já na hora, aguardavam, o Mundo Miúdo seria apresentado. Arrumei tudo. Conferi a luz. Conferi o discman: putz, é a trilha de Palitolina que está, não dos bonecos.
Falei com Zila, você sabe andar de bicicleta? Saber, sei, só não sei o caminho. É um direitaesquerdadireita sem fim. Explicou-me. Fui.



Lá pelas tantas, eu acelerada para chegar logo, cruzamento ali na frente, estico os dedos, aperto-os.. cadê o freio? Um pouco de sola a menos no sapato, mas um pouco de vida a mais.
Acertei o caminho na sorte, pois no meio do trajeto já não sabia se já havia dobrado ou não, cadê a sorveteria para virar em frente?

Já hoje andamos sem pressa. E entre mulheres que espantam moscas dos peixes à venda e meninas que procuravam peixinhos no rio, fui me despedindo.

Almocei com eles, vou indo, um abraço forte em todos. Cássio foi comigo até o ponto, e esperamos o ônibus. Também deu-me um abraço forte, desses que se dá em parentes distantes. Fique bem, e até mais.
Em Joinvile aguardei por bastante tempo o ônibus para Floripa, de nome Florianópolis, até que veio. Vim vou vim vou, sigo com meus compassos em sol.

Barra do Sul, SC, 20 de novembro de 2009



Hoje acordei 5h 30min.
Tudo escuro, todos dormindo,
fui espiar o nascer do sol.

Cheguei lá ele já se acordava
fazendo manha para sair do mar.
E bordando o céu de todas as cores possíveis e impossíveis

resmungou
“não, hoje não quero acordar”.

Mas tinha, e brincou de vestir roupas coloridas antes de aparecer.

Um dos espetáculos mais lindos que presenciei!
Tenho meus olhos multicolores.




PRESENTES DE CRIANÇAS


 Ao meio dia recebi presentes: cartões das crianças da escola do turno da manhã que apresentei ontem. Zila disse que foram as crianças que pediram para fazer, que queriam.

Palitolina com cores das mais diversas, traços de todos os tipos, mensagens das mais variadas:

“Palitolina você é muinto legal e bonita e engraçada, você tem uma carreira linda como você, eu queria ser igual a você, você é deslumbrante. Muito obrigada pela sua apresentação foi muinto legal eu me diverti muinto e dei muintas risadas. Beijos da sua nova fã.
Ass: Maria Eduarda sua fã

Série: 4ª 1”




À tarde fui apresentar o Mundo Miúdo para a turma de Zila, já que a apresentação da Palitolina na APAE foi cancelada por conta de outro compromisso firmado pela turma. Então fui com a minha caixinha.
O carinho que recebi foi imenso. Todos haviam assistido ontem, e olhavam para mim a sorrir. Olha lá, a Palitolina”, gritavam quando cheguei, ainda longe, e interromperam a aula para me ver pela fresta da porta. Um a um assistiram a pequena história.

Kauany, de 10 anos, ficava por perto tirando fotos dos celulares. Perguntei tu gosta de fotografar? Adoro!! Quer tirar com a minha?



Lá vai Kauany para lá e para cá com a máquina na mão. Dali a pouco falei.. ela filma, quer filmar? Na hora. Em dois segundos expliquei como era, em um ela já entendeu. E enquanto eu apresentava para os que não haviam visto ela, sozinha, organizava tudo, tomando a iniciativa e tendo as idéias: ia na sala, pegava dois alunos, levava-os para outra sala e gravava mensagens para mim e/ou Palitolina. Não vi como fazia, mas pelas imagens vê-se claramente que foram ensaiadas, para que tudo desse certo.
De cada um e uma também recebi um cartão, caprichos em formas, cores, recortes e letras. Além dos sorrisos. E voltei para casa contente.

Quando Zilá chegou trouxe mais cartões, são 86 no total. Um mais lindo que o outro, mais tocante, simples e detalhado. Sutilezas da roupa de Palitolina, ações paralisadas em lápis de cor.







Da direção da escola, que também assistiu a peça, ganhei uma coruja feita de conchas, confeccionada por eles, e uma caixa de bombons.

Amanhã sigo para Florianópolis, onde ocorrerá Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro 8. Levarei saudades daqui.

Barra do Sul, SC, 19 de novembro de 2009

Fui ‘cair’ no lugar certo, justamente a casa de uma professora. Assim, hoje fiz duas apresentações de “Re-Bolando..” na escola, de manhã e à tarde.


Deliciosas, como os doces daqui. Divertidíssimas para mim, pintadas com risadas por todos os lados, crianças e jovens participando de tudo. Alessandra, menina de olhos bem azuis que não parava de rir, contagiando a todos. E tantos e tantas outras, reações espontâneas, participações tímidas e entregues, abertas a possibilidades. No final pediram-me autógrafos, me dá o número de seu telefone?

Estou bastante cansada, e, ao contrário de durante o dia, chove muito por aqui agora, trovões fortes, luzes, terra e céu se tocando. Mas o cansaço só me faz feliz, estava já com saudades de Palitolina assim, entregue. Zila disse que foi Deus quem me enviou para cá. Se foi, agora há festejos no céu, e minha alma toda vibra.


NOVELANDO

Assisti televisão.
A novela das 8h que começa às 9
Está nas mesmas discussões, encontros, lágrimas e capítulos
há mais de uma semana.

(isso lá é viver a vida?)

Barra do Sul, SC, 18 de novembro de 2009

Já estou em solo catarinense. E agora, por indicação de uma grande amiga de minha mãe, que sequer conheço mas que sei que faz caixas de papel como ninguém, tenho-me na casa de sua ex-cunhada nesta cidade praieira de ruas finas e casas coloridas. Cheguei e liguei, oi, estou aqui, para que lado vou? Disse me espere que te busco.


Pouco depois chegou de bicicleta: Cássio seu nome. Dezesseis anos, magro, sorriso e aparelho nos dentes. É o filho da ex-cunhada da amiga da mãe – relações longínquas as que estabeleço!
Quando a mãe disse-me que era ele quem estaria em casa e não Dona Zila eu tive certo receio. Acho difícil conversar com pessoas dessa idade, nunca tenho assunto. Mas foi diferente, ele bem aberto e comunicativo, o que facilitou bastante. Vai fazer geografia, gosta daqui demais e da saga Crepúsculo, conversa que rendeu, ele a explicar-me a história e o porquê do fascínio adolescente pela mesma. Tem quase todos os livros, e gosta muito de ler.




 Quando passou das 15h fomos à praia. Protetor solar, biquíni, caminhamos até o ponto onde o rio encontra o mar. E que belas paisagens! Ao longe quatro ilhas.
Voltamos e logo depois chegou Zila. Bonita, veio querendo saber da visita. Preparou o café para o filho e o chimarrão para ela, hábito antigo.

Fomos tomar café, pão, salame, cuca, delícias. Chegou Luzia e sentamos na varanda, para conversar.
Luzia é diarista e faz faculdade de história. Divertidíssima. Chegou falando de uma diarréia que teve e ficou tímida ao saber que eu estava aqui: “fiquei com vergonha de você saber que eu também tenho cú”, falou, fazendo gargalhadas brotarem da timidez.



Toda a conversa foi assim, engraçada. Causos de discussão sobre flores, encontro de duas pessoas meio surdas conversando no ônibus, uma dizendo “aham” à outra sem nem saber o quê era dito. E assim ficamos, sem nem saber os minutos que se escondiam no tempo. Logo Luzia foi embora, Cássio foi à escola e eu, Zila e o cão Tingo fomos à praia.

Está aqui há quatro anos. E sente já seu o lugar, nem se imagina fora. Um pequeno paraíso, tranqüilo e sossegado. Contou-me que sua avó veio da Polônia da navio, com dois filhos pequenos – seus tios, passando muito tempo em alto mar. Ela acha que talvez por isso sua ligação com o mar seja tão forte, todos os dias vem caminhar na praia e contemplar as ondas branquinhas.

É professora do primário, 3ª e 4ª séries. Ama o que faz, e já faz há muito tempo – tem alunos que estão com ela há 4 anos, todos os dias, e que insistem que ela pegue a 5ª série. Gosta de ouvir as crianças e também não acha errado dar a eles responsabilidades. Por vezes, troca aulas inteiras para ouvir histórias dos/as alunos/as, o que direciona a aula para “outra coisa, muito melhor!” Falei sobre a educação pública na Bahia, o quanto são heroínas as professoras que suportam, que seguem crendo. Comentamos o quanto é difícil não confundirem autoridade com autoritarismo – como dizia Paulo Freire, a segunda dispensável, mas a primeira necessária. O quanto a falta de limites em casa e em sala de aula leva ao caos que não é criativo, com diálogos permanentes entre os dois espaços, e contou-me como ficou comovida com uma agressão de um aluno para com um professor ocorrida hoje no colégio, que isso na acontece aqui, tudo sempre tão calmo.
Aqui há integração de alunos com deficiência mental aos demais, e não só no papel ou nas aparências como ocorre em Salvador. Na sala de aula, há um segundo professor só para acompanhar a/o aluna/o que tem dificuldades, dando-lhe opções de atividades que se relacionam com as dadas pela primeira professora, e que ele/a pode fazer junto aos demais colegas.


Conversamos sobre o papel da educação, e contei a ela sobre algo que eu soube em São Paulo, com a tia Ângela: da educação de uma tribo da África.

Lá, quando uma criança nasce, a mãe, junto a outras mulheres da aldeia, leva a criança para a floresta e ficam lá até descobrir a canção daquele ser. Encontrando voltam à aldeia e a ensinam aos demais. Toda vez que aquela criança/pessoa passa por um ciclo importante de sua vida – como, por exemplo, o casamento – é cantada por toda tribo a canção. Se por ventura esta pessoa realiza algum delito ou algo que faça mal à tribo, todos no centro da aldeia se juntam ao redor da mesma que, no meio do círculo, ouve a sua canção. Para eles essa é a forma de educar: através da sua música a pessoa relembra suas origens, que não é alguém ruim, e com isso repensa sua forma de agir. No funeral também é cantada a canção, única de cada um e uma, que a acompanha na viagem de partida.

Seguimos para casa, canções nos ouvidos e o som do mar a se espreguiçar ali perto.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009



Minha mãe tem o verbo ‘borboletiar’

Mais utilizado no gerúndio:

“Não vai ficar a noite toda borboletiando por aí

e se perder na cidade, hein?!”

Da tribo indígena de Araçá-i, Piraquara, ao Jardim Botânico de Curitiba, PR, 17 de novembro de 2009

Hoje fui à aldeia com Onilson da FUNASA – pois é, lá é FUNASA e não FUNAI, fui descobrir hoje. De ônibus até Curitiba e de lá peguei carona para a tribo.

Fomos conversando, eu tranqüila e animada. Longa estrada de chão, e placas da prefeitura de Piraquara sempre a indicar: a aldeia é para lá!

Ânimo passageiro, o meu. Breve tensão momentânea de chegada e, lá, uma das cenas mais tocantes que vi durante toda a viagem.

Eram roupas. Muitas. Mais de 20 sacolas enormes, do tamanho das crianças. E índios. Via-se pela pele, pelos olhos, jamais pelos trajes. Escolhiam. Uma menina passava coberta e envolta por um arco de guarda chuva rosa, rendado, destes de filmes antigos. Mulheres olhavam blusas, saias e calças. Separavam seus sacos. Grupos de crianças descobrindo novas combinações.

Em torno, casas de madeira, uma só de barro, e uma escola com uma placa da fundação da escola, em 2002, pela Arquidiocese. A Igreja, a boazinha.. Bicicletas, carros estacionados. Afora os olhos e os olhares bonitos e puxados do povo indígena, nada os diferenciava. Nada dizia, ali, a olho nu: somos nós, índios, nada de sua cultura própria os destacava.
Não que eu esperasse encontrar uma tribo de índios nus a caçar com lanças no rio. Não que eu não soubesse que já havia ocorrido ali ‘processo civilizatório’, mas foi tal o choque que fiquei um tempo imóvel frente às roupas vestidas de índios.

Devo ter uma visão por demais romântica desses povos – pensei. Logo ali à frente veio o cacique, que depois vim a saber que era também pajé da tribo. Chegou com seu boné, relógio no pulso ao lado da pulseira de sementes e camiseta da seleção brasileira de futebol. Estava lá dentro esperando o início da transmissão. Eu, quieta, olhava.

Apresentaram-me a ele. Lembra? A moça que Andréia falou. Sabia. Só não sabia que viria hoje. Nem eu, Seu Marcolino, nem eu. É para apresentar, né? Pode ser agora, ali na escola?
Ui, que susto! Poder, podia, mas.. agora, nesse estado que estou? Fiquei nervosa, mistura de espanto com tristeza e com sentimentos que não sei definir. Disse sim sem querer dizer nada, só para espantar o silêncio. Fui pegar as malas no carro, o quê estou fazendo, eu nem devia ter vindo. Eu sou a ‘branca civilizadora’, eu sou a ‘branca civilizadora’, devia estar bem longe daqui.
As crianças conversavam rapidamente em tupi guarani, falavam ao mesmo tempo, alvoroço, já estamos na sala de aula, lugar indicado que também disse sim no impulso. Como eu ia entrar no estado de palhaça assim, eu sou a branca, como? Eu não entendia o que falavam os pequenos, o que comentavam enquanto me apontavam. Eu sou, eu não devia.. Estava quase chorando a esconder o rosto, tamanho nervosismo, e agora, e agora? Assustada.
Fiquei um tempo parada de frente para as duas malas, o tripé, a sacola do Mundo Miúdo onde estava o discman e o boneco de nariz vermelho, que não entrou nas malas e eu havia tirado da mochila, solto estava agora. Eu sou a branca, ai.
Parei.

Precisava colocar meus pensamentos em fila, por ordem na bagunça que acontecia em mim. 1- Já estou aqui, está feito. 2- Disse que apresentaria algo, as crianças estão esperando. 3- Não vejo como entrar no estado de palhaça assim como estou, coração não quer se acalentar.
O nervosismo fazia-me suar, e nem quente estava. Peguei o tripé, montei. Peguei a caixinha, coloquei em cima. Tentei pensar, caixa não, palhaça – palhaça não, caixa, não consegui, segui no impulso. Coloquei os bonecos, arrumei o som. Tudo pronto. Olhei tudo. Silêncio e tempo. Tirei o fundo do cenário da história: os prédios enormes, tive vergonha. Eu sou a branca, eu sou. Guardei-o – assim está melhor. Falei com as crianças, as que não entendiam direito o português recebiam tradução das demais, crianças de cinco a nove anos.

Apresentei.
Espiavam a história por todos os lados, por cima e por baixo da caixa. Falavam não-sei-o-quê, animados entre si e se assustando com a música que saía dos fones. O quê estou fazendo aqui, o quê?
Depois que todos viram tentei puxar assunto. Aí um disse: quero ver aquele – e apontou para o boneco de pano com o nariz vermelho. É pra já. Peguei-o, sentei em uma cadeira, coloquei-o no meu colo. Comecei a animá-lo, olhinhos atentos. Comecei a conversar pelo boneco, respondiam tudo.
Logo veio um e apertou-lhe o nariz. O boneco reagiu se protegendo (risos). Veio outro fazer o mesmo, fugiu ainda mais (risos). Aos poucos era o elo que faltava: eu já contracenava com ele e com as crianças como palhaça, ainda que sem o nariz e as roupas, improvisando reações e brincadeiras. Trocávamos, enfim!
Cantavam canções em português, o boneco pedia músicas em tupi. Abaixavam as calças dele e riam das nádegas fofas que o boneco escondia com suas mãos de quatro dedos. Risos, risos, meus e deles e delas. Veio o cacique, riu também e se foi. Troca, eu sou a branca, mas estamos trocando, um pingo de leve alívio repentino.

Quando acabou as crianças foram para suas casas com seus sacos de roupas. Eu guardei tudo e fiquei por ali, sentada em frente à escola, nos bancos de madeira. Chegou o professor, conversei, todos eles tem aula aqui, o cacique está acabando o ensino médio. Saiu. Chegou a diretora, conversei, eles são os índios mais conservadores do Paraná, todos os dias quando o sol se põe se reúnem para reza ali na casa de barro. Saiu. Chegou o cacique, conversei, vim para cá em 1991, doaram-nos as terras de uma chácara antiga, viemos da divisa com a Argentina. Trouxe mais umas 40 pessoas. Hoje tem mais, mas não chegam a 100. Disse “vou estudar” e saiu.
Eu fiquei.

Não tirei fotos nem nada filmei, não queria ser essa, não queria. Só fiquei, a olhar.
Aí então voltou o Onilson, estava no Posto de Saúde, eu disse vou-me embora com você.
Na volta vim pensando sobre o eu-branca, sobre o boneco, sobre a palhaça. Na volta vim pensando onde eu dormiria hoje. Onilson perguntou estás triste? Disse não, mas nem sabia. Nem sei, ainda.
Deixou-me em Curitiba e, depois de achar um hotel baratinho - destes de frente à rodoviária, vim ao Jardim Botânico. Lugar de brancos? Há lugar para cada qual? Nem sei, nem sei.

Paranaguá, PR, 17 de novembro de 2009

Perdi a professora. Tenho-me agora sentada na calçada em frente ao Iate Clube, o relógio marca 8h 24min, trêmula e com as pernas bambas da velocidade com que vim para cá trazendo todo meu casco de tartaruga. Mas a professora já foi, falaram-me 8h 30min, foi antes.
Não que não tivesse acordado cedo. Noite mal dormida, toda hora acordava para ver se não havia passado a hora. Às 6h 15min levantei, fiz o que tinha que fazer.
No café conheci Seu Bide, um senhor que contrastava com minha ansiedade: pescador desde os 12 anos, agora carrega 67 de sabedoria. Não tinha como não ouvi-lo, conversar com aquela criatura encantadora. Falou-me que sempre trabalhara para ele, sem carteira assinada:
“Se eu quero essa xícara (mostrando a xícara) eu vou trabalhar até conseguir. Não vou pedir pra ninguém, nem ficar falando. Vou trabalhar, quieto, até ter ela”.
Seu Bide continua pescando porque é o que gosta de fazer. “É que nem você que se formou em uma coisa, vai trabalhar nisso a vida toda, porque gosta. Eu também. Nem ia à escola pra trabalhar”. Já conheceu o Brasil todo pescando.
Perdi o barco, mas não perdi meu tempo. Se perdi a professora, talvez impedimento de ir até Cotinga, o caminho será outro. Só mais um, só.


Dali fui à FUNAI, indicação do pessoal do Iate. Encontrei com Andréia, moça graciosa, e Onilson, dentre outras pessoas simpáticas. Falei e, em dois tempos, ligaram para o celular da professora. Ah, fácil assim? Ela adorou a idéia, mas precisava falar com o cacique, precisa da autorização dele, que ligasse pelas 11h 30min que ela perguntava.

O cacique de lá é Dionísio. Na Grécia Antiga, Dionísio era o deus do vinho e do teatro. Pensei: sorte?
Ligamos no horário marcado, ela não havia conseguido falar com ele, não passou aqui por conta da chuva. Falei da chuva? Pois é, chove, e muito. Aí esperei mais e mais, e nada. Então Andréia falou: por que não vai na aldeia de Piraquara? Lá tem mais gente e o cacique também é mais “tranquilo”. Ela ligou para lá, o cacique gostou da idéia, legal, que venha. Pensei, eba!

Oacesso que é um pouco difícil. Mas consegui carona com Onilson, ele vai para lá e posso ir junto, apresenta-me ao cacique. Estou na torcida!

Tenho-me um pouco cansada de todos os dias arrumar e desarrumar a mala, de, por esses tempos, na maioria das vezes não saber onde vou dormir no amanhã. Queria só um pouquinho de estabilidade fora de mim.

Paranaguá, PR, 16 de novembro de 2009

“Nunca pra trás, sempre avante!” – foi a recomendação por telefone, hoje, do Dudu, meu irmão de 10 anos que à espera no sul. Mas hoje retornei para Paranaguá a fim de amanhã cedo tentar ir à Cotinga, falar com a professora, conhecer por lá.
Retornei ao albergue de anteontem, revi o amigo Adelino, senhor português, ué, não foste? Fui e voltei. Pois sim, é a natureza que nos leva, não a gente.
Seu Adelino também viajou muito, fez da sua vida uma grande aventura. Só não conheceu a Dinamarca, sonho antigo que ainda aguarda realização.
À noite andei até a praia, em frente, para pensar trajetórias.


NA VERTICAL

Tiram fotos do céu
E os barcos, imóveis, sorriem.


O barqueiro continua a limpar seu convés e seus peixes de escamas grossas.
Podia chover outra coisa que não água,
só para divertir os jornais.


No cais há espera do que nunca vem
Dos céus começam os gritos de “saiam daí, vou chorar!”


A sombra na areia é de alguém que, sentada, nem sente que se move,
quietos são também seus pensamentos a aguardar a chuva.


Ousam ainda fazer a travessia a barco alguns pequeninos, e ao longe um motor.
Rema, rema. Leva antes que te levem, homem.


Continuam as arquiteturas divinas
ou celestes
ou diabólicas
ou o que quer que seja.
Daqui a pouco, bem pouco daqui.


Não sei se volto ou se fico, estátua quieta em banco de cimento.


E começa.


Aos poucos os odores se revelam com suas cores inquietas na negra noite.
Aos poucos as linhas verticais aumentam.
E eu volto ao hotel,
porque voltar é também partir.

Paranaguá, PR, 16 de novembro de 2009



Hoje acordei cedo, fui à praia, tomei um banho de mar renovador. Pelas 11h fui ao hotel, arrumei o desarrumado, peguei minhas bagagens, fui ao centro e encontrei com Alexio, ‘o japonês’ que vem me ajudando por aqui, dono do Bora Bora. Ia apresentar a palhaça, mas não havia muita gente, sol de meio dia, próximo ônibus passa às 12h 35min, muito obrigado por tudo e vou indo. Foi pegar o carro para me deixar no ponto, pensei que alívio, já supunha a aflição da volta, parece cada dia mais pesado estar a mala e carrinho. E, no ponto/rodoviária, dessa vez foi Dona Marcedes quem me achou.

“Ai, esse relógio que não anda” – reclamava das horas vagarosas. Dali a pouco tocou o telefone. “Sim, sou eu. (pausa) Ah, sim, aquela casa grande é minha! Tô chique, hein?!” Era um aluguel da casa para o ano novo. “Alugo só 10 dias ou mais, 250 por dia. (pausa) Pensa aí com calma e mais tarde me liga”. Ao desligar confessou: “é o único momento do ano pra ganhar meu dinheirinho, né?! Ano Novo e temporada”.
Dona Mercedes mora em Curitiba. Tem uma imobiliária, veio de Blumenau por conta das chuvas, há muito tempo atrás. “Agora tá demais, né? E o povo lá tão trabalhador, tudo gente simples!” Ela comia rosquinhas enquanto conversava, brancas, quer?


Pouco antes de meu ônibus chegar, ofereceu a casa em Curitiba para eu passar um tempo. “Eu deixo você ficar lá”. Fez-me anotar o número de seu telefone, ano que vem, na temporada, se ninguém alugar você fica. Lá é bonito, grande.

O número anotei na mão e apagou-se. Mas Dona Mercedes continua em mim.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ipanema, PR, 15 de novembro de 2009



Quando eu era pequenina,
quase do tamanho de meus pesadelos,
passávamos os verões de férias na praia.

Íamos todos juntos: tios e tias, primas, irmão que ainda era um só, às vezes até vô e vó.
E entre areias nos pés do chuveiro e almoços coletivos, lembro-me das disputas para carregar o pedaço de madeira pertencente a base do guarda sol
(isso lá deve ter um nome)
que fazia riscos no chão do mar à calçada, linhas para caso alguém se perdesse – era o que pensava minha cabeça fértil.
Na praia, tudo era motivo de festa, de churrasco e de brindes.
E a alegria de cada um era compartilhada pelos demais.

Nossos castelos de areia geralmente eram feitos em grupos, competições por vezes havia, e lembro-me da delícia que era construí-los ao lado da tia Kelly ou mãe,
torres pontiagudas, portas por todos os lados.

Na praia eu e o Guto – meu irmão – costumávamos brincar juntos, correr por entre as dunas e rolar, fazendo corpos à milanesa. E as disputas eram para ver quem tomava banho primeiro, chegando da praia, com a pele ‘peguenta’.

O percurso da calçada à beira do mar era longe, como daqui à África.
Zombador, o sol fazia-nos sambar na areia fofa e quente dos finais de manhãs.
Mas nada era mais gostoso, gritarias, picolés premiados, raquetes, desenhos na areia, pulo das ondas, costelinhas de porco do tio Paulo.

Vez ou outra mãe entrava na água: “tá na hora de sair!”
“Ahhh, mãe, eu nem tô com frio..”
“Tá sim, vem!”
Era minha boca roxa que sempre me denunciava.

Agora estou em outra praia, sentada na areia quase branca. Ali na frente crianças brincam, e me vejo na menininha magrela que corre da onda baixa.

Cheguei ontem aqui, sol forte, andando e pegando ônibus metropolitano cheio com meus quilos de bagagem. Bora Bora, Pizzaria e Choperia, bonita, ampla e bem cuidada, onde está Marcelo? Era de tarde. Pode fazer ali, ou ali, ou ali.. Tudo certo, quer ir ao hotel? Quero. Preciso de um banho para secar o suor.
À tarde vi movimento no calçadão, e se apresentasse a palhaça e depois o Mundo Miúdo? Mas aqui tenho apoiadores, melhor perguntar. Faz o Mundo Miúdo, vai ter banda agorinha depois do jogo de futebol, a música é alta, vai cobrir você. “Vai, Curitiba, vaaaaaaaaaiii.. ser campeão!!” – coro enquanto eu comia a pizza de tomates secos e o suco de pêssego, delícias oferecidas, posso levar o restante para o hotel? Podia. Lá peguei a caixinha e voltei, montei. Delícia apresentar lá! Crianças, adultos, posso contribuir com o trabalho? Estão anunciando no microfone que você aceita contribuições. Se estão dizendo é porque posso, tirei o chapéu vermelho da bolsa colorida.

Como estava gostoso de ficar, fui ficando. Algumas crianças assistiram mais de quatro vezes, saíam e voltavam à fila longa, ficando horas comigo.
Fui para o hotel feliz com a noite.