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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ESTE ANDAR - uma síntese

O artigo abaixo escrevi para a revista Anjos do Picadeiro 8, integrante do Encontro Internacional de Palhaços ocorrido em Florianópolis/SC em dezembro de 2009. Tive a honra de participar em uma das mesas, contando um pouco de minhas experiências de troca da Bahia ao Rio Grande do Sul. Este texto, agora, apresenta um pouco do como e das origens deste projeto.

No arquivo deste blog - de setembro de 2009 a janeiro de 2010 - você pode acompanhar mais de perto cada experiência vivida, cada conhecimento sentido e aprendido e ver, em fotos e palavras, algumas das pessoas que estiveram presentes neste caminhar.
Boa leitura, e sinta-se à vontade!



Uma palhaça entre mundos miúdos
Genifer Gerhardt Dimpério

Irá sozinha a Sarule, com seu figurino, sua máscara e seu tambor; não para conquistá-los, mas para ser tomado, converter-se na imagem, em sua memória, do homem que se fez ator, para buscar-se a si mesmo, ao se confrontar com os demais (Barba: 1991, 108).

Este relato trata de trocas em povoados. De experiências sentidas durante um andar.

De outubro a dezembro de 2009 realizei trocas em regiões de até dez mil habitantes nos estados da Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estabelecendo um roteiro de Salvador, BA, até Santa Cruz do Sul, RS. Viajei sozinha de ônibus, mochila nas costas, carrinho na mão, em locais escolhidos no caminho, dormindo em casas de pessoas desconhecidas. Minha moeda de troca: dois espetáculos, um solo de rua como palhaça e com bonecos intitulado Re-bolando com a Gringa Errante e um teatro Lambe-lambe que chamo de Mundo Miúdo ‒ teatro de animação.


Trajetória
Quando era pequena e diziam que eu deveria ter cuidado com desconhecidos, ficava amedrontada. Lembro que as primeiras vezes que saí sozinha andando pelas calçadas de minha cidade natal, Santa Cruz do Sul – uma pequena cidade com uma enorme igreja em estilo neogótico –, eu costumava fazer caretas. Sim, as mais horrendas caretas de que era capaz. Atravessando os sinais vermelhos, lembro do chão com seus buracos, e os olhos de desconhecidos que gelavam minha alma. Pensava: “se eu fizer uma cara bem feia não irão gostar de mim, e assim estarei salva”. Língua para fora, sobrancelhas afastadas, boca torta: era capaz de tudo com minha pequenina face, em meus primeiros caminhos solitários.

Quando cresci mais um pouco, criada por minha mãe e suas costuras doces a enfeitar casas alheias, me mudei com ela, o irmão mais miúdo e um padrasto. Fui morar na capital gaúcha, em um Alegre Porto no sul. E lá, em praça pública, já com meus quinze anos, vi um desconhecido que se tornou especial para mim. Não descobri, na época, seu nome. Nem o modo como sobrevivia, sua família, comida preferida, nem seus sonhos, aspirações. O homem – que dez anos depois fui descobrir ser chamado Tcheli ­– estava atrás de uma caixa torpe de papelão, escondido, a mexer bonecos pequeninos. Carregava consigo um walkman colado com fita adesiva, acoplado a duas caixinhas de som. Ele trazia um chapéu, e a nave espacial que animava era uma tampa de panela enfeitada com miçangas. Não havia falas: música e seres, só. E risadas, das mais belas, preenchendo rostos da multidão que se aglomerava à sua frente: crianças, adultos, idosos.

Ali, sentada procurando o manipulador, lembro de ter pensado: “queria que minha amiga lá de Santa Cruz visse isso!” Ela havia ficado na minha cidade, e eu agora estava lá a dividir emoções com quem nunca vi.

Quando completei meus dezoito anos mudei-me com minha família para outra capital, a baiana. Dizia: “vou, mas volto logo”. Voltaram, e eu fiquei.

Um dia, esperando para ver um espetáculo, sentada em um banco velho e verde, olhei para o lado e me surpreendi com um palhaço. Não, ele não tentava fazer graça. Nem sequer me viu, escondido em seu silêncio. Tinha malas, vermelha uma delas. E após uma respiração profunda que acompanhei à distância, cabisbaixo, foi aos poucos erguendo o olhar. Viu-me. E eu o vi e toda a tristeza que também um palhaço pode ter. E toda sinceridade com o presente.

Aquele homem, pouco depois, se apresentava, sozinho como o outro, em praça pública. E erguia sorrisos de todas as idades, a brindar o encontro. Aquele homem reconheci como eterno mestre e monsieur: o Alexandre Casali, palhaço Biancorino.

Entrei na faculdade de teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Fiz trabalhos, artigos, dei aulas, atuei dentro de salas de espetáculos de todos os tamanhos. E dentre mestres prático-teóricos conheci o Eugenio Barba e o grupo Odin Teatret da Dinamarca. Exerciam e ainda exercem atividades ligadas à Antropologia Teatral. Um dia deparei-me com as “trocas” do grupo. Descobri que em 1974

(...) o Odin Teatret deixou seu laboratório de Holstebro e mudou-se para Carpignano, uma aldeia de 2 mil habitantes em Salento. O encontro e o confronto com este ambiente geográfico-cultural teve um notável impacto sobre o grupo, enfrentando numerosas circunstâncias imprevisíveis (Barba: 1991, 103).

O grupo propôs o enfrentamento como forma de descobrir, na experiência, o sentido de suas atividades. Permaneceu durante dois meses neste povoado ao sul da Itália, realizando suas atividades e percebendo a reação dos habitantes, meros desconhecidos, frente àquele trabalho. E descobriu nas “trocas” possibilidade de diálogo sem renúncias, baseados na cultura popular: “que não divide, mas reúne”:

A diferença é nosso ponto de encontro. Imagine duas tribos nas duas margens de um rio. Cada tribo por viver por si mesma, falar da outra, falar mal ou elogiá-la. Porém, cada vez que cruza o rio e vai à outra margem, o faz para trocar algo. Não cruza a água para ensinar, falar, se divertir, mas para dar e receber: um punhado de sal por um pedaço de tecido, um arco por algumas pérolas. Trocamos nosso patrimônio cultural (Barba: 1991, 106).

 A ideia da troca como possibilidade de enfrentamento me atiçou. Mas como trocar sem um grupo, sendo uma só? E como trocar sem uma estrutura, sem apoio financeiro?

No mesmo livro, Eugenio Barba descreve em breves e curtas linhas a “troca” realizada por uma das atrizes do grupo, Iben Nagel, que, sozinha, passou duas semanas conhecendo e trocando com habitantes em um outro povoado: Ollolai, na Sardenha.

Chegando, encontrará uma realidade que não lhe espera e não lhe faz sentir-se necessária. Aqui, não é a ação do ator que é necessária, mas a ação do homem. É o momento da solidão – não pode conquistar, perturbar: é estrangeira e se sentirá estrangeira. Deve novamente encontrar o motivo de sua presença nos olhos, nos gestos, nas reações dos demais. Como fazer chegar sua necessidade à necessidade dos demais se não são as do planeta Teatro? No fundo, você sabe: só destruindo-se, queimando-se, quebrando-se com uma violência que aqui cada homem padece (Barba: 1991, 108).

No texto há estas palavras e outras poucas relacionadas à viagem solitária da atriz, que compõem uma página do livro onde ainda se encontram duas fotos da mesma. O “como” tornou-se tarefa imaginativa, e resolvi investigar possibilidades.
 
De início, propus-me a criar um espetáculo solo de rua visando trocas, por entender, também, que a rua é o local mais propício para o encontro com públicos mais diversificados em culturas, idades e crenças. Por ver na rua desconhecidos em potencial. E por ser um local extremamente democrático e livre para o exercício e troca de ideias.

Re-bolando com a Gringa Errante é um espetáculo que dialoga com experiências de rua, com saberes no ramo do Teatro de Animação e com conhecimentos acadêmicos prático-teóricos. O espetáculo solo traz a palhaça Palitolina, eu, interagindo e se atrapalhando no encontro com personagens e bonecos inusitados. Com poucas palavras e composta de números próprios, a montagem privilegia o riso em uma esfera poética e contagiante.  Resultou no meu trabalho de conclusão do curso de Licenciatura em Teatro (TCC) na UFBA em 2008.2, sob orientação de outra mestre, a professora doutora Sonia Lucia Rangel, intitulado Re-bolando com a Gringa Errante: em busca de uma Pedagogia da Troca com palhaça e bonecos. A pesquisa tratou da criação do espetáculo e de uma experiência realizada no povoado de Bravo, município de Serra Preta, interior da Bahia, onde, através desta peça, realizei trocas culturais e me aproximei de crianças, adultos e idosos do povoado. Esta aproximação permitiu-me conhecer parte da cultura da região, divulgá-la e dialogar esta experiência com minha prática diária, pedagógica e cênica, além de estimular minha vontade de estender e prosseguir com a pesquisa por outras regiões do país.

O Mundo Miúdo - teatro de animação foi outra concretização de sonhos que há muito me perseguiam: pequenos bonecos com simples histórias a encantar o presente. Ele faz parte de uma forma teatral conhecida como Teatro Lambe-lambe.

O Teatro Lambe-lambe é uma das várias manifestações que constituem o Teatro de Animação Contemporâneo. (...) Esta nova forma de teatro utiliza uma pequena caixa cênica, portátil, dentro da qual é encenado um espetáculo de curta duração (na maioria das vezes dois minutos), com a utilização de bonecos ou outros objetos que são animados (Arruda: 2007, 131).
Esta nova linguagem foi inicialmente criada a partir da observação dos antigos fotógrafos de rua, os chamados Lambe-lambes. Consiste em uma caixa. Pequena. Dois orifícios na parte da frente, trilha sonora. E lá dentro pequenos seres mostram ao espectador o seu mundo, miniaturas do que aqui fora é supérfluo, ou miúdo demais para ser visto a olho nu.

De lá – da caixa misteriosa – pode surgir de tudo: é um mundo à parte, poético e único que apresenta o pequeno como princípio, e a possibilidade enquanto fim. Um novo mundo onde a recepção é tão diversa quanto a criação, novos olhares sobre o cotidiano. Pequenos espaços intimistas que trazem em si histórias breves e delicadas; grandezas de intimidades capazes de aproximar pelo encantamento. Sempre olho no olho, sei de cada um que assiste e compartilha comigo este olhar. Nossa relação – o público e eu – é particular e onírica. Recebo sempre sorrisos ao final dos espetáculos miúdos. E, vez ou outra, brilhos nos olhos que conversam comigo em palavras mudas.

Tinha comigo, agora, dois espetáculos. E junto deles a minha vontade antiga de apresentar em cidades pequenas e de me enfrentar e ao meu trabalho como forma de aprimoramento e pesquisa. Além disso, carregava em meu peito a saudade de minha mãe, que há dois anos morava longe, no sul, junto ao resto da família.

Assim, com meus vinte e cinco anos resolvi unir trabalho e diversão e ir ao encontro de minha mãe, no Rio Grande do Sul, via trocas.  Em 2009 resolvi partir.

A partida, as chegadas
Foi em um dia de domingo que decidi a saída. Era um desses domingos que se está em casa fazendo contas e a colocar a cabeça nas mãos, droga de vida. Tive a noção de que trabalhava para pagar despesas, nada mais. A comida. O transporte. A luz, o telefone. E pensei comigo: “a vida não pode ser só isso!” E acrescentei: “minha vida não pode ser só isso”.

Aí, em silêncio peguei o calendário. Números miúdos em folha de agenda, sucessão de ciclos de lua, circulei um dos dias: aqui. Marquei a saída que sempre empurrava para “um dia faço isso”. Marquei o recomeço. Risquei o calendário cego.

Nos meses seguintes, sem alarde apresentei-me na praça de Salvador todos os finais de semana. Era temporada teatral, a minha, e profissional ‒ até então eu havia apresentado Re-bolando com a Gringa Errante uma única vez durante o TCC. Mochilão nas costas com o material cênico, peso, ônibus cheio, um não saber fazer e um insistir quase doentio. Porque doía não saber fazer. E dentre públicos pequeninos, sorrisos leves, crianças destruindo o cenário e bêbados, havia um grupo de senhoras e senhores a me acompanhar à distância, dos bancos da praça. Estavam sempre lá. Aplaudiam de longe e hora ou outra vinha algum ajudar com pequenas moedas no chapéu. Mal sabiam o quanto ajudavam, a me olhar junto às estátuas mudas. E a sorrir, compartilhando meu progresso.

Em todas as apresentações eu lembrava de ensinamentos de mestres palhaços que tive. De “engolir e seguir em frente”, como diz Alexandre Casali. E das palavras do palhaço argentino Chacovachi ‒ que conheci em uma oficina que fiz, como bolsista, no Anjos do Picadeiro 6, em Salvador. Com ele aprendi que “não importa se você é bom ou não, importa é fazer. Se é bom ou ruim é o tempo quem vai dizer”. Após todas as apresentações eu voltava sozinha para casa pensando no que foi, como foi, como fazer diferente.

Assim os dias se passaram.

Enquanto isso, em casa, eu também me preparava, costurava a mão saquinhos de diferentes tamanhos e tecidos: este é para as meias, aqui vai a mini-farmácia. A diferença de textura dos panos ajudaria na hora da procura na mochila, mão lá dentro sem olhos e puxar o saco certo.
Dois meses, três, quatro, cinco.  Aos poucos, de moedinhas passei a receber notas, e as dores pelos erros foram amenizando ‒ não doía sempre, só às vezes. E chegada a hora da partida já considerava o espetáculo bom, ainda que eternamente inacabado. No estado de palhaça não há como fechar gestos e reações e atitudes ‒ aprendi com o tempo. E que bom, que bom!

Na saída para a longa viagem abracei as pessoas queridas. Malas, Mundo Miúdo, mochila, guarda-chuva. Pegou tudo? Acho que sim. Pegou a coragem? Acho que sim. Segui para a rodoviária em ritmo leve. Não havia pressa. Agora seria assim, sem pressa, a apreciar o acaso, os encontros, o novo.

Minha estratégia de ação nos povoados era simples. Ia de ônibus até uma cidade maior escolhida pela região. Lá, na rodoviária, com o mapa na mão indicando as localidades possíveis, escolhia o próximo povoado. Ora porque me indicavam, ora porque eu achava o nome bonito ou interessante. Ou até na sorte, apontando o mapa de olhos fechados. Aí procurava saber como chegar ‒ o maior de todos os desafios. Chegando ao local, percorria as ruas ‒ ou a rua ‒ olhando as pessoas e conversando, e aos poucos íamos nos conhecendo, aceitando ou não o novo. No caso de haver aceitação me convidavam para ficar, e eu dormia com eles e elas em casas das mais variadas cores, e cheiros, e tamanhos, e culturas, e moradores. E apresentava nas praças, nos clubes, igrejas, escolas, e nas casas. Quando sentia que bastava, seguia.

Em alguns locais fiquei dois dias, em outros cinco, em um fiquei doze dias na mesma casa. Sentia quando minha presença era bem-vinda e quando não. E partia imediatamente ao ver rejeição, porque o Brasil é grande, e não é preciso forçar o querer.

E entre as alegrias de me conhecer, e as desconfianças, houve os que agradeciam em rezas coletivas a minha presença e os que me mandavam embora ao me conhecer, braços cruzados sinalizando a distância.    

Entretanto, havia um momento sempre mágico nos pequeninos/grandes lugares. Um momento único, que se repetiu em todas as regiões que estive: estando palhaça, após as apresentações de Re-bolando com a Gringa Errante, as portas sempre se abriam. Sempre havia locais para ficar, para dormir, conversas já sem medo à beira de fornos de barro. Talvez porque ali, frente à apresentação, entendiam o meu caminhar como troca ‒ a balança equilibrava-se em cada um de seus lados. Ou talvez por ser o palhaço verdadeiramente tão humano a ponto de aproximar, ainda que sem palavras, e combater os medos presentes no encontro com o novo.

Lembro-me que Gardi Huter citou, certa vez, em uma mesa-redonda que fez em 2007 no mesmo encontro Anjos do Picadeiro 6, que a arte, em seus primórdios, surgiu para exorcizar os medos: desenhos em cavernas com representações daquilo que os assustava e guerreiros, mostrando que é possível combater esses medos. O palhaço, para Gardi, é uma forma evoluída de manifestar os medos. Ele se coloca nessa posição representando todo sofrimento do mundo: é o tolo, o incapaz, o débil, o contrário de tudo que a realidade atual preza. E mostra-se como um consolo ao público, que pensa: “ufa! Alguém é mais estúpido do que eu”.

Nos povoados, senti o espetáculo de palhaça como ponto fundamental de aproximação. Nos lugares onde não foi possível apresentar dificilmente houve troca, ou conversas tranquilas sobre realidades distintas. A desconfiança pairava como vela acesa em noite de rezas. Mas após o espetáculo havia entrega, respeito e cuidado mútuo. E assim as trocas transcorriam de forma espontânea, inundando meus dias de surpresas multicolores.


Pagamentos e aprendizados
Como o trabalho do Odin Teatret em 1974, o meu não foi totalmente altruísta. Não era um trabalho gratuito.

Sem dúvida, as motivações do Odin Teatret para trabalhar em Carpignano são antes de tudo egoísticas: estamos aqui porque esta tarefa nos estimula, porque aqui temos a possibilidade de enfrentar um trabalho novo, de colocar-nos em situação de desafio (Barba: 1991, 103).

Colocar-me nesta posição de desafio tornou-se fundamental para minha visão desse trabalho como catalisador de encontros ‒ interessava-me a aproximação em si e as trocas com as pessoas de cada povoado, mais do que o lucro ou o glamour trazido por espetáculos teatrais em cidades pequenas. Buscava conhecer o cotidiano e os conhecimentos presentes neste vivenciar, diferentes em cada região. Esta era a moeda.

Claro que havia o chapéu, as contribuições em cédulas para o trabalho. Ao contrário do Odin, em minhas trocas não contei com patrocínios, apoios financeiros, e todos os gastos que tive saíram de meu bolso, de um dinheiro que juntei trabalhando com teatro em Salvador e com o chapéu que passava durante as apresentações. O dinheiro, este, foi apenas o suficiente para as passagens de ônibus, lanches e hotéis baratos nas cidades intermediárias, em que eu parava para o envio do material entre um povoado e outro. Não era a troca por dinheiro o foco ‒ eram outros os escambos principais desta jornada. Era o conhecimento, a possibilidade de encontro com o desconhecido, o confronto comigo mesma, com minha profissão em realidades outras que não as teatrais.

Assim, os dias em companhia do tempo ultrapassaram expectativas. Encarei frente a frente sentimentos dos mais variados, chorei de alegria e de tristeza inúmeras vezes. Fiz bolhas de sabão do medo: eram coloridas e depois explodiam no vazio. Fiz das desconfianças força, bordei castelos de amanhecer do apreciar. Um dia de cada vez. Fugi, procurei, recomeços constantes. E aprendi.

Aprendi com Dona Aparecida do povoado de Campinarana, na Bahia, que as religiões podem ser respeitadas pelo simples fato de carregarem consigo a fé, maior de todas as forças. Vi com o silêncio dos habitantes de Dourados, Minas Gerais, e com o contato com os integrantes do circo Vitória, da Bahia, que não é preciso forçar o querer: que há muito chão e muitas pessoas para trocar, basta “baixar a lona” e seguir, erguendo ali em frente. Aprendi com a Dona Galdina (Diu) o meu papel frente à injustiça presente nas terras, com a Dona Bil vi o sorriso sendo lançado sem cobranças, entendendo, na Comunidade de Poções, MG, que sempre se pode sorrir, não importa a dificuldade. E que sempre se há de chorar, não importa a grandeza.
Com Dona Maria rosquinhas, com Ângela mousse de maracujá. Panquecas de batata na Paula e no Alê.

Em Belo Horizonte aprendi, com a Cia El Indivíduo, como viver da arte de rua, e bem. Com coragem, criatividade e suor. A Marisa e a Dinha de Holambra, São Paulo, mostraram-me a pureza presente nas pequenas ações de ajuda, e o Seu Betinho, de Mogi das Cruzes, cidade intermediária, além de me ensinar como escolher limões e laranjas em feiras, ensinou-me que a família é mero reconhecimento de quereres, não conta tanto o sangue e a genética. A família ‒ irmãos, tios ‒ pode ser escolhida, basta o reconhecimento da amizade.
Dona Maria, de 75 anos, mostrava-me a meninice presente em qualquer idade enquanto, sentada no cordão da calçada, calmamente esperava o filho para consertar seu fusca empacado. “É sempre assim, esse é o meu carro!” ‒ sorridente, não tinha pressa em viver.  E em Paranaguá, em dia de chuva em um hostel conheci Seu Bide, pescador antigo de cabelos brancos, apaixonado desde os doze anos de idade pela profissão. Aprendi com ele a delicadeza de se batalhar pelo que se quer, no silêncio e com foco. E que, em tempestades, não resta nada a fazer a não ser segurar-se firme ao leme e esperar.

Indo até a tribo indígena de Araçá-i, no Paraná, senti que por respeito também se afasta, e se nega. Que não é preciso estar com para amar. E com a Zila e o Cássio em Barra do Sul, litoral catarinense, aprendi que a vida pode ser simples como as ondas do mar, a ir e vir em marés de aconchego.

Participei do Anjos do Picadeiro 8 durante a viagem, e lá encantei-me com mestres em falas, atitudes e silêncios. A grandiosidade do tempo em Avner, senhor-menino. E a sabedoria do circo em uma doutora de nome Erminia que reconheci amiga, assim como tantos por lá.

No sul de Santa Catarina aprendi a ter mais cautela, cuidados pequeninos de mundo gigante. Na Capela São Francisco, Rio Grande do Sul, ensinaram-me que o trabalho duro deve sempre ser atrelado ao bem viver, relações puras que não estão atadas unicamente à moeda dinheiro.

E aprendi com o tempo que recebemos o que buscamos. Que onde há gente há gente, independente das barreiras ou cercas que enlaçam o viver. E, ainda, que “não há como generalizar comportamentos por regiões porque isso desconsidera o fato de que, bem lá no fundo, independente do tempo/espaço, somos da mesma raça de bichos, nascemos, crescemos, cremos, tentamos, conseguimos algo e morremos, em ciclos humanos intermináveis de esperança, parceria e solidão”. Escrevi isso no meu diário de bordo.

Em todos os locais que estive buscava novos amanhãs, e só. Buscava ver as pessoas com olhos, ouvidos e pausas. Buscava o natural, o conhecimento escondido em cotidianos. Mas buscar o que não se sabe nem sempre é tarefa fácil. Amedronta. Buscar o que não se sabe mexe com o que não se sabe, com emoções escondidas. Com sentimentos quietos em suas portas cerradas, lá guardadas no fundo da gente.

Se sentia medo? Sempre. Em cada chegada, em cada estar. No entanto fazia parte, também não queria a distância deste sinalizador que freia, mas que, simultaneamente, me fez avançar como forma de transgressão. Sentia medo, muitas vezes, porque me ensinaram a ter medo do desconhecido. Mas tinha consciência de que não há necessidade de temer, que os caminhos podem ser outros.

Se sentia solidão assim, viajando sozinha? Não tinha como. Havia sempre pessoas dispostas a me mostrar algo, crianças com suas brincadeiras e cantigas próprias de roda, idosos com histórias de anos. Não havia como me sentir sozinha afora os momentos habituais e humanos de solidão, quando não importa quão rodeados estamos de pessoas queridas: sentimo-nos sós ainda assim.

Sentia saudades de casa, como sempre se sente quando se está longe. Mas eu estava perto de mim, e tornei-me minha própria morada. O meu refúgio. O meu quarto com suas bagunças e tênis jogados pelos cantos, meu baú com lembranças doces a impulsionar.

Uma amiga mais tarde citou ser esta viagem o meu tesouro, ninguém o tira de mim. E jamais conseguirei expressar em palavras as mudanças que senti e sinto em meu corpo, meus valores mexidos vindos deste caminhar. Os momentos, os belos e os tristes, estão tatuados em mim como estas flores coloridas. Os aprendizados, as imagens, o florescer dos sorrisos. (Sinto já saudade das estradas, das preocupações simples, aonde vou dormir amanhã?).

Aprendi, miúda, a não sair com desconhecidos ‒ era perigoso. E carreguei medo comigo por todo esse tempo, fazendo caretas por dentro e por fora. No entanto, o que conhecemos, afinal? Somos desconhecidos para nós mesmos, não importa o que dizem ou dizemos que somos: sempre podemos ser algo diferente. Descobri nesta jornada que desconhecidos são horizontes em potencial, que carregam consigo conhecimentos dos mais variados tipos, das mais variadas cores, dos estilos mais diversos. E resta, frente a eles, apenas trocar e aprender ‒ como se faz com os mestres de livros de faculdade. A linha tênue que nos separa é apenas um risco, na imensidão de encruzilhadas que enlaçam o viver.


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Referências
ARRUDA, Kátia de. “O menor espetáculo do mundo”. In: Teatro de Bonecos: Distintos Olhares sobre Teoria e Prática. Organização: Valmor Níni Beltrame. Jaraguá do Sul: Design Editora / UDESC, 2007.

BARBA, Eugenio. Além das Ilhas Flutuantes. Tradução: Luis Otávio Burnier. Campinas, SP: Editora Hucitec, 1991.

CHACOVACHI. Manual e Guia do Palhaço de Rua. Salvador: Teatro Sesc/Senac Pelourinho, dez 2007. 03 cassete sonoro, ¾ pps, estéreo. (135 min). [Gravação sonora da oficina dada por Chacovachi no Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro 6, autorizada pelo mesmo].

DIMPÉRIO, Genifer Gerhardt. Anotações da mesa redonda: Criação - modos de pensar e fazer, com Biribinha, Gardi Huter e Leo Bassi. Mediação: Hugo Passolo. Salvador: Teatro Sesc/Senac Pelourinho, 14.12.2007. [Não-publicado. Mesa integrante do Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro 6].



Créditos das fotos
1. Malas - esperando o ônibus  -  Foto: Genifer Gerhardt - Pericó/SC
2. Apresentação na rua  -  Foto: Ana (12 anos) - povoado de Campinarana/BA
3.  Mundo Miúdo - uma outra história - Foto: Vera Milliotti
4. Mundo Miúdo - apresentação em uma escola  -  Foto: Kauany (10 anos) - Barra do Sul/SC  
5. Mundo Miúdo - "N'eu e N'ele"  - Foto: Expinho
5. Colhendo ameixas  - Foto: Marina (11 anos) - Capela São Francisco/RS
7. Corrida antes da apresentação -  Foto: Djalma - Comunidade de Poções/MG
8.Tomando café e ouvindo histórias da Dona Bil  -  Foto: Genifer Gerhardt - Comunidade de Poções/MG
9. Apresentação em uma escola - Foto: Caio (15 anos) - Barra do Sul/SC
10. Personagem do Mundo Miúdo na casa da Dona Galdina  -  Foto: Djalma - Comunidade de Poções de Baixo/MG
11.Seu Betinho e Dona Maria (uma carona no fusca que perdeu o vidro)  -  Foto: Genifer Gerhardt - Mogi das Cruzes/SP
12. Indo  -  Foto: Angela - São Paulo/SP

sábado, 1 de maio de 2010

( )


Hoje deu vontade de ir, de novo.
Ir assim, só pra ver como é.
Entre uma estação e outra, entre uma gente e outra, tudo é uma coisa nova que se abre como janela de sótão, assim.. vibrando.
Ai de mim querer viajar. Ai de minha vontade quase cega de esquecer de todos os males, das dores, dos ais. Ai de minha verdade verde quase cega de querer. E só.

Hoje o dia se fez assim, manso. Morno e triste, mostrou suas garras embaixo de lençóis de nuvens frias. Hoje o dia se fez canção e inundou o silêncio de melodias quietas.

Meu irmão de 10 anos se dói quando digo que vou viajar. Meu irmão me abraça, e dói. Diz que vai sentir saudades. Digo que também, e ele contesta, simples como a lágrima, então fica. E quero ir, e quero estar com ele, e quero aprender a parar só pra ver como é. Quero aprender a acalentar a mente, quero ver como é o não querer andar. Mas não sei, me ensina, maninho?
Quero não carregar saudade, mas é tarde. É tarde, já se foi o tempo. Saudade em mim é como fogueira certa em noite de João, o São. E ai.

E ai.

Quero me despedir estando, quero não querer mais. Quero esse abraço todo dia, e cada dia menos ais.
Mas não sei.
 (mas
      não
            sei)

terça-feira, 23 de março de 2010


foto: Antelmo Paulo Stoelbenn

sexta-feira, 5 de março de 2010

Tenho-me agora em Porto Alegre. Quem diria, voltei a morar com minha mãe. E irmãos, e o Duda (quem diria?? um gato!) Tenho-me aqui não sei por quanto tempo, enquanto me organizo para mais viagens, e trocas, e andanças.
Enquanto estou aqui tenho me apresentado no Brique da Redenção. Tenho vivido de rua. 

(...)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Santa Cruz do Sul, RS, 22 de dezembro de 2009



Cheguei em Venâncio Aires, mas não houve como ficar. Na pousada indicada, a do centro, só um homem tomava conta, e com seus olhares estranhos levemente me levava ao quarto: uma cama de casal, dos locais mais abafados que vi, banheiro do lado de fora. O banheiro é aquele? É, é.

Tendo viajado o dia todo e sendo quase noite, tudo que eu queria era um banho, um local para relaxar. Mas entrando no banheiro não houve coragem. Era de um fedor descomunal, com pegadas de barro no chão, a pia de há dias, crosta de uso. Voltei ao quarto e passei a desconfiar da roupa de cama, com seus furinhos e sujeiras. A luz que acendi mal iluminava - era como aquelas de motel, que se liga para não se ver.

Tentei do celular falar com pessoas queridas, quem sabe assim me acalmo, quem sabe assim engulo mais esta até amanhã. Mas não pegava o sinal, maldita hora que resolvi desembarcar do ônibus aqui, pensei.

Tentei me acostumar com o cheiro, no quarto vizinho dormia o homem. Tudo cheirava a guardado, ao que não se move, tudo era fixo. E, saindo da pousada, perguntei se havia outro local, se era o único, e diziam que havia, mas era muito longe dali.



No meio da rua, cansada, suada, tomei uma decisão: chegaria hoje em Santa Cruz, 45min de onde estava agora. Se em sonho desejava chegar amanhã para uma última apresentação repleta de reencontros com pessoas queridas, optei por chegar em silêncio. Por mais de 20min chamei o homem que, não me ouvindo, permanecia a dormir. As últimas batidas foram como trovões na porta de madeira, não terei mais ônibus se não vieres, e lá veio ele com seus olhos estranhos a olhar-me inteirinha. Terei que ir embora, surgiu um imprevisto - não tive coragem de dizer a verdade, só queria sair dali.

Do dinheiro que paguei antecipado ficou com a metade, e eu que nem sequer sentei na cama, mas fique, não há de me faltar - pensei. Na rodoviária, silêncio e a moça do guichê - a última que sobrara - a avisar que o ônibus vem aí, é último também, ele passa no centro de Santa Cruz.

Sentada no escuro do banco com braços da rodoviária eu era só lembranças. Estava chegando ao fim minha viagem, dali a algumas horas era nova a fase que se iniciava em minha vida - este sonho que me acompanhou desde a juventude havia sido realizado, cedia espaço agora a outros, que já povoam a minha mente de estradas tortas.

E quando se está aonde se quer o tempo passa como aves que nem se vê mais as asas pela distância nos ares. Quando se está assim não há nada que amedronte mais que o chegar.



Estava feliz com o reencontrar, e de certa forma triste pelo parar. Mas sempre há o momento da pausa, o retomar de fôlego, o entrelaçar de braços. Sempre há o ponto no mapa que delimita o espaço, e diz fim, é aqui por agora.

Nas calçadas de Santa Cruz do Sul, ao descer do ônibus, o carrinho gritava em cada fresta que caía. Resmungava, tentava ficar. E no escuro da noite íamos em direção à casa de parentes. Acalenta, acalenta coração, e faz deste teu presente agora.
Chegando, o susto da tia. Já?? Não era amanhã? Já, cheguei.

O comércio aprumado para o Natal fechava suas portas e mais de 22h já eram, enquanto eu abraçava os tios e tia, as primas que me passavam com suas alturas e pés descalços.

Vendo-as depois de tanto tempo, crescidas e lindas jovens, vi o tempo a passar correndo em meus olhos escuros. É o tempo quem transforma os rostos, não os anos. Ele, absoluto, é quem dita quanto dura cada segundo, período que não condiz com os relógios, e que passa diferente por cada ser. E percebendo na minha viagem os 72 dias em que estive em companhia do acaso, vi que o entrelaçar de linhas do relógio é absolutamente confuso, e torpe, e por vezes falso. O tempo assim, visto em horas, é mera convenção de especialistas, ponto de vista dos relógios - como escreveu Mário, o Quintana. Meus poucos dias de viagem foram anos, décadas de vida. E chego mexida com tantas mudanças.



Dormi próximo às primas, com lençóis cheirosos. Dormi próximo à família que esperava encontrar há tanto, e nem conseguia acreditar em ali estar.

De manhã acordei cedo pelo hábito adquirido. Na casa com paredes levemente coloridas a faxineira, que vem uma vez por semana, me reconheceu, chamando-me pelo apelido de infância: “Nuni, como tá bonita! Veio da Bahia? Lá onde todos falam assim, arrastado, como o moço da novela?” Disse é, é, nem sabia de quem falava.

E próximo ao meio dia era eu quem esperava, ansiosa, pela chegada de minha mãe e irmão mais novo. Andava sem parar para um lado e o outro, será que está tudo bem? E ela, que durante todo esse período me esperou, veio faceira, e linda, sorridente com seus olhos azuis e com sua pequena sacola escura nas mãos.

Apresentei à tarde na praça, irmão Dudu enorme a carregar o carrinho com as malas, a ajudar na arrumação, a segurar a maleta. Primeira vez que viam, novidade ver a família gerada a assistir-me como palhaça, e a rir, e a vibrar comigo. Conhecidos e desconhecidos no mesmo lugar de sorrisos, e amigas, das mais antigas. E lá, enquanto eu apresentava e curtia os momentos, como criança a espiar pelos olhos recém abertos vi o olhar de orgulho de minha mãe.




Cheguei.
Cheguei, mãe.
E tenho-me cá a dançar uma valsa alegre com o tempo.

ROSTO, ainda em Caxias

Almoço em rodoviária estranha.
(Que sobe e desce é este que me cansa os pés?)

Comida a quilo, suco barato.
E lá pelo meio da batata frita dou de cara com um sujeito de há anos. Longa pausa. Paraliso. Sim, é o rosto dele quem diz que estou perto.

Fala, mas voz não há. Nunca havia reparado em suas bochechas salientes, seu nariz ‘abolotado’, sua forma esguia e contundente com que libera palavras. Só notara sempre sua careca, marca registrada, impecável e permanente.

Não lembrava de seu terno. Mas aquele ali, aquele que aparece na televisão, mudo e sério a balançar os lábios, é aquele mesmo de meus almoços diários, é aquele que sempre denunciava os abusos, as faltas, carências. Continua ele aqui, atrás das lentes, a falar no jornal que divide o dia. E eu cá chegando em silêncio percebo que o macarrão, assim, toma ares de casa de mãe e de tia. E eu cá chegando entendo também um pouco mais o papel dos e das jornalistas.

Caxias do Sul, RS, 21 de dezembro de 2009

Acordei cedo, 6 horas. O ônibus sai às sete, é o Nêgo quem o leva para a cidade. E vai junto Dona Lita, Marina, Dalvi. E vai junto Seu Alceu e mais um monte de gente.
Antes de sair a ‘chimia’ de uva, ameixa, o bolo de chocolate que aqui no sul chamam “Nêga Maluca”. Antes de sair abraços e obrigados, e um tchau à Vitória que se vira no colchão e dá adeus de olhos fechados, abraço forte.

Aqui tudo se faz, do alho ao sabão. Aqui tudo se tem, solidariedade, doses de carinho, animação. E até brigas, como em qualquer soma de gente.
Aqui Dalvi quis me pagar o trabalho, é pelos dias tirando ameixas. Disse não, foi querer meu o tirar. E então quis dar o dinheiro como contribuição pelo trabalho, o meu.

Viajando, pouco a pouco o ônibus esvaziou, e só restou eu a chegar na rodoviária. O Nêgo não me cobrou a passagem, boa sorte, vá em frente.

O abraço de Dona Lita pouco antes não esqueço, aconchegante, lembrou os de minha vó quando eu tinha meus dez anos de menina. E também vem comigo o despedir de Marina, que pegou a câmera fotográfica ontem sem que eu visse e gravou um depoimento de adeus.

As ameixas que colhi na Capela São Francisco, norte do Rio Grande do Sul, eram verdes. Deveriam ser porque demorariam a chegar no seu destino, tempo de amadurecimento. De cá, a última cidade que fico antes de Santa Cruz do Sul, as ameixas que colhi vão para Vitória da Conquista, Bahia, a primeira cidade que passei após a saída de Salvador.
O ciclo se fecha com espirais de abertura.

Capela São Francisco, RS, 19 de dezembro de 2009

PASSADO, PRESENTE


Quando nada se conhece não há nenhum registro de passado que aproxime dois mundos. E, não havendo passado, não há, ou raras vezes há, acolhimento, carinho, cuidado e proteção para com o outro.

O espetáculo “Re-Bolando com a Gringa Errante” serviu, neste caminhar e dentre outras coisas, como uma maneira de construir um presente/passado conjunto com as pessoas de cada povoado. Já disse Chacovachi que ninguém esquece quem um dia lhe fez sorrir. E é compartilhando, no espetáculo, bons sorrisos e situações inusitadas que foi tecido um passado comum, um registro na memória minha e deles e delas que nos tornava próximos.

Percebo, ao olhar o caminhar, que após a apresentação houve sempre uma aproximação maior: tratavam-me já como conhecida, familiar. E sentiam-se mais à vontade comigo.

Assim, o passado compartilhado faz, nesta viagem, um presente que sempre se renova, e que em pouco tempo nos aproxima - pessoas tão distantes no tempo/espaço e sempre tão próximas no humano. Tocando a mim e a eles como em um acordo mudo. E mútuo, e mútuo. Um passado todo nosso, intransferível, insubstituível e vivo (ao menos na memória que é a minha).

Capela São Francisco, 18 de dezembro de 2009






"Era um lugar em que Deus ainda acreditava na gente...
Verdade 
que se ia à missa quase só para namorar
mas tão inocentemente 
que não passava de um jeito, um tanto diferente, 
de rezar”       (Mário Quintana)




Aqui há tranqüilidade, há animação também, há.
Aqui há serviço muito, há fofoca muita, também há.

Tem o que ‘encuca’ com o pai,
tem o que foge do filho,
tem o filho da viúva que, para ela, tudo é.
Tem o que casa por dinheiro,
tem a que acorda no escuro para preparar o café.
Os bêbados, as bêbadas,
tem o que não ajuda o sogro,
a empregada que ganha bem,
tem os que caçam,
e até aquele que machucou o olho com chumbinho, vê só como foi, com um olho só e ainda consegue laçar.

Tem os machistas,
as que não cozinham,
as que cozinham até demais.

Trocas de receitas,
de cavalos,
de pomares,
tem até as que trocam maridos.

Umas 80 famílias,
média aproximada de 3 por grupo.
Tem gente de todo tipo
só não tem tristeza pro lado de cá.

Ou tem?

Tem, também tem.

SOBRE SOLIDÕES



Certa vez ouvi do Paulo Autran
em uma entrevista que dava a algum repórter curioso
que a solidão não é opção,
é, antes,
condição de vida.
Que somos sozinhos, não estamos
(agora, ou depois, ou em outros tempos).

Consigo ver isto.
É uma visão parecida com a saudade.

Tenho-me só em grandes companhias.
E às vezes acordo em silêncios de conversas e vejo, no olho do outro,
um caminho solitário
(e no meu, e no meu).

Tenho-me cansada de respostas prontas
e de perguntas que insistem em assustar, intercalando o futuro com o concreto puro, algo que não sei se há como associar.

Tenho a impressão, às vezes,
que o tempo que estou só é o mais tranqüilo dos tempos
Porque não há respostas
nem nada que não seja a parceria doce do agora.
Há apenas o café, a folha em branco, a vontade transformada sempre em vida
(como quando assistimos programas idiotas na TV sem medo de sermos descobertos por alguém que passa, e aponta, e ri).
As risadas alheias, estas me cansam - porque fazem de mim aquilo que não quero.

Sozinha posso não responder perguntas
E elas permanecem lá, a vagar,
porque mais importante que as respostas
são as perguntas.

Sozinha posso sentir solidão em paz.
Porque todos sentem, em algum momento
olham suas mãos nuas, por dentro e por fora cruas,
e vêem em si esta condição temida: sou só, só.

A solidão é um susto da vida.

Capela São Francisco, RS, 17 de dezembro de 2009

Conversando, sentindo e perguntando, resolvi ficar mais uns dias por aqui, dias suficientes para que a ida a Santa Cruz seja direto desta estrada. Não tenho pressa em conhecer outros lugares e pessoas porque há muito ainda a se conhecer por aqui com estas pessoas, estes lugares, e por notar sinceridade no insistir deles e delas para que eu fique mais um pouco.





 Hoje foi a formatura do período pré escolar da Vitória, a pequena. Fui convidada: é no salão da escola, em Monte Alegre, de manhã.
Não esperava tanto.





A solenidade, com direito a discursos das professoras e presença de autoridades locais, foi para cerca de quinze crianças vestidas com becas brancas e vermelhas. Filmagem, mesas para convidados separadas por alunos/as, salgados e refrigerantes. Promessa dos pequenos, de mão erguida: “sei que hora de brincar é brincar, e hora de estudar é estudar (...) seguindo em frente para o futuro do Brasil” - sim, falaram isto! No final, saindo a banca, uma apresentação dos pequenos ao som da Xuxa: vou pintar um arco-íris de energia. Cantávamos isto no meu tempo, não haverá nada mais criativo, e novo? E as crianças nervosas, sérias, seguiam a professora com suas cores desbotadas.

Perguntei depois à Vitória se havia gostado da cerimônia. A-do-rei! - disse. Pena não parecer, lá, criança. O único que vi se divertir era o Matheus, colega com síndrome de down que não parava na cadeira, divertindo a todos com seus sorrisos inusitados e seus abraços não programados.


Tão pequenos precisam, realmente, de momentos tão formais? Não será a infância período mais propício para o improviso, o aflorar de conhecimentos novos trazidos por eles e elas, e não os nossos - dos adultos que já se acomodaram com o viver?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Capela São Francisco, RS, 16 de dezembro de 2009

PALHAÇAR


Hoje aconteceu algo incrível, destas coisas que acontecem só quando se está à beira de precipícios.
Marcamos apresentação, a segunda por aqui. No salão, como a primeira. No entanto com menos divulgação, já que permaneci mais nesta casa de sete pessoas que ao redor, pois há muito a se conhecer e fazer por aqui. Avisamos aos que chegavam, aos que passavam, apenas isto. E, depois destes últimos dias de sol, hoje choveu novamente pouco antes do horário marcado de apresentação, próximo das 21h.
Antes de me arrumar estava por demais tranquila, algo que, d’outras vezes que aconteceu, sempre teve má resultado: achando estar bem preparada, a apresentação era uma grande porcaria, sem trocas com o público. Mas hoje pensei quero que seja diferente, e corri pelas ruas escuras de palhaça embaixo de chuva para buscar energia para começar.

Chegando no salão, umas dez pessoas. Ai. Meu corpo gelou. Lembrei-me das apresentações anteriores para poucas pessoas, das repetições, do não conseguir dialogar, trocar, reagir e encarar os poucos como poucos. E em minha cabeça houve a reação: vou fazer para essas dez, exclusivo, posso me aproveitar disto. Irei tratá-los como únicos. E foi a melhor de todas as decisões que tomei.

Olhei os rostos e, brincando, descobri ser só umas três pessoas que não haviam assistido da outra vez. Chegaram Dona Lita, Tânia e Seu Nini, uma surpresa para mim, achei que tinham ido dormir após um dia inteiro, desde às 4h, de correrias e limpezas. E mais algumas pessoas que também já haviam assistido, totalizando cerca de 17 pessoas no salão. Comigo, comigo.

A apresentação foi só improvisos sobre situações do momento, e os números apenas anteparo. Mudei números de lugar, cortei parte de outros, pausava a música para aproveitar os instantes.

Atrevi-me a chamar Seu Nini para me ajudar no número do ovo, em que o ajudante, após um longo ‘preparo ridículo’ para tal, joga ao alto um ovo de verdade que pego e, pelos aplausos, acabo quebrando em mim. E ele veio tão prontamente que logo vi ser esta uma escolha das melhores. E o ‘preparo’ foi dos mais entregues que vi, o corpo de Seu Nini se contorcia com sons dos mais estranhos, e engraçados, alegres. Eu ria junto. E a galinha que fica sem cabeça. E até o ovo que caiu no chão sem que eu conseguisse pegá-lo, fazendo da madeira uma poça amarela, tudo coberto de sorrisos nossos.

O boneco também, senti uma harmonia como nunca com o público nesse animar compartilhado.
No entanto, o mais emocionante para mim ainda estava por vir. E veio depois do término, tendo eu agradecido a todos, dinheiro no chapéu, obrigado e boa noite. Mas não se moveram. Sentados em silêncio continuavam me olhando, até que, após um longo tempo de grilos, Dona Lita falou não queremos ir embora. Queremos ficar mais contigo. Eu recoloquei o nariz e disse então tá, sentada à beira do palco que quase não havia usado para ficar mais perto deles e delas. E ali, assim, aconteceu de tudo, danças, doces brincadeiras, com e sem falas, em tudo havia vida. Arrisco a confessar: dos melhores momentos que vivi enquanto palhaça. Em silêncio pouco depois agradecia a cada um e uma lá presentes por me permitirem viver esse momento, pra mim, tão cheio de magia. E agradeci a mim mesma por ter feito tantas saídas improvisadas antes de montar o espetáculo, saídas estas onde o único intuito era trocar com as pessoas e me divertir com o cotidiano, fazendo dele possibilidade risível de vida. Percebi que, sem este suporte e sem os mestres que tive, seria este um momento desastroso. Mas não foi, mas não foi.

Ali, no salão da Capela São Francisco, havia a troca com uma intensidade tão forte e viva que creio que jamais imaginarão, os e as que lá estiveram, o quanto este contato me deixou mexida. Foram momentos ímpares e que jamais haverei de esquecer. Havia confiança e respeito de todos os lados, e risos prolongados ecoando no grande salão. Havia vontade conjunta de lá estar, e felicidade que brota junto a grandes paixões. Momentos tão repletos de presente que o passado anda vivo em minha memória enquanto escrevo, galopando entre tudo que fui e tudo que esta experiência me permite ser.

Voltamos para casa juntos, Vitória agarrada em meu braço fino. “Quando crescer quero ser igualzinha a você” - disse ela. E pensei em silêncio: “quando crescer quero que todas as apresentações sejam trocas, como esta”.

Aos que lá estiveram agradeço aqui, com carinho tal que as páginas que escrevo não suportam. Aos que estão a me acolher em sua casa e também lá estiveram, Seu Nini, Dona Lita, Tânia, Vitória e Marina, não sabem o que significou para mim a presença, lá, de vocês. Possivelmente este rabiscar em caderno amarelo não chegará a muitos olhos, dificilmente aos seus. Mas o escrever é também oração, é também vibração, é pulsação de energias boas, e quero escrever seus nomes como forma de abraçar.



Capela São Francisco, RS, 15 de dezembro de 2009



Acordei novamente cedo para ajudar. Nem tanto como eles, que nunca vejo saindo. Mas pelas 7h 30min estava de pé, a última a levantar.

Como as meninas haviam ido para o colégio - últimos dias - eu cá fiquei a contribuir, como ontem no fim do dia, na limpeza da casa e no que podia com a cozinha. O rodeio rende, especialmente aos que organizam! As roupas sujas acumuladas deram serviço à Tânia por toda a manhã. “Os homens aqui não ajudam porque também trabalham, na roça, o dia todo” - dizia, não sei se por conformismo ou aceitação.

Eu fiz o que pude, e no final da manhã telefonamos a fim de saber se havia como, na quarta-feira, fazer uma última apresentação aqui no salão e, quiçá, apresentar um dia na escola das meninas em Monte Alegre. Dona Lita quem ligou para lá: “Oi, é a mãe do Zoreia.. Escuta, tem uma menina aqui lá da Bahia, e ela faz apresentação de teatro, é bem legal, pra criança e quem mais quiser ver. Ela tá começando, pensei nela apresentar aí pras crianças, na gente dar uma força pra ela, tá indo pra casa da mãe em Santa Cruz..” - atrás dela dei uma risada inocente, lembrando do caminhar de anos e do “começando” dito por ela.. é isso aí! Continuou: “É, aí cada um dá quanto pode.. Ah, é com ela que tem que falar? Tá, eu ligo mais tarde então.. Brigada, tchau!”

À tarde a moça retornou a ligação, daria para apresentar só na segunda, essa semana havia as provas finais. Disse ser tarde - é tempo demais para ficar por aqui, acho abuso, pensei. E disse que não daria, então, obrigada.







Depois fomos colher mais ameixas, e com mais pessoas colhendo fiquei um tempo sem bocó. Mas cansa-me ver outros trabalhando e não trabalhar junto, não suporto por nem cinco minutos. E dava um jeito de carregar os caixotes, colher colocando no boné, levando nas mãos. E comendo uma ou outra, porque ninguém é de ferro!









Já sinto vontade de seguir, embora aqui esteja maravilhoso o estar, e insistem para eu permanecer. Percebo que a tranqüilidade em eu ficar é o fato de sempre estar ajudando, disposta, com o que for. Mas coçam-me os pés para pegar a estrada, a mão para fazer bonecos, e aqui não há como. Faltam poucos dias até a chegada, estou bastante ansiosa.

Capela São Francisco, RS, 14 de dezembro de 2009

AMEIXAR, VERBO SABOROSO


Hoje no início da tarde fomos colher ameixas. Fomos Tânia, Dalvi - o filho de Dona Lita e a esposa dele - e eu junto para conhecer e ajudar, e as meninas junto para acompanhar.

Pega as bem maduras, coloca nos bocós - uma espécie de sacola de tecido grosso pendurada no ombro - e depois nos caixotes. As que tiver assim estão muito maduras, no ponto, não adianta colocar nos caixotes porque para vender vão chegar lá ruins, passadas. Pode comer se quiser, ou joga fora.
Fora nunca iam.

Eu não lembrava do gosto das ameixas: suculentas, doces, como quando se acaricia os lábios com algodão. Gostosas, muito! E pegava as ameixas, e tirava fotos, e colocava nos caixotes, e comia. Comi muitas, e Tânia ainda ajudava dando-me as saborosas, já havia ela comido demais. Quer? Quero, sempre. E conversávamos, como é lá na Bahia? Plantam o quê?

Voltei para casa contente, ‘ameixada’. Voltei sorridente, feliz com o ‘ameixar’.

Capela São Francisco, RS, 13 de dezembro de 2009

RODEIO - 2º DIA

“E agora vamos rezar um Pai Nosso em memória do nosso falecido amigo que mês passado nos deixou e foi laçar lá com Nosso Senhor: Pai Nosso que estás..” - todos os chapéus descumprindo sua função, nos braços, longe das cabeças.

Hoje pela manhã choveu no rodeio novamente. O barro fazia-se poça, a chuva fazia do tempo ainda um frio, como se de inverno - falavam as senhoras entre si. E depois, lentamente, o sol começou a espiar os cavalos, indo e vindo a avisar as nuvens dispersas.

Procurávamos pelo calor do sol como quem cata mosquitos ao dormir, acendendo a luz e observando gravemente as paredes brancas.

Em seguida, churrasco, churrasco! Se em Floripa a carne era rara e nos fartávamos de verduras e frutas, aqui é a carne quem dita o almoço, a salada e o pão são meros acompanhantes. Espetos enormes, carnes macias e suculentas ou a gosto do freguês. Aos vegetarianos peço que não leiam, mas comi com gosto cada pedaço! (Dia desses quis virar vegetariana. Mas em minha cabeça são as verduras também vivas, e as árvores, e vegetais, e frutas, tudo respira alma. Não comer vidas? Mas como?)



À tarde os pingos haviam ido embora de vez, e o chão mais seco permitia a passagem sem as crostas.
Na mangueira - aos não-gaúchos, local onde fica o gado antes de ser laçado pelos peões - as vacas mostravam-se cansadas, e cancelaram um dos campeonatos para que descansassem. E eu, que sempre fui contra rodeios e afins, vi que, ao menos neste, não maltratam as vacas, nem os bois, nem cavalos. Apenas correm, e em uma só laçada buscam acertar-lhes os chifres, encaminhando os animais em seguida até o local definido de término de cada tentativa. “Essa foi branca” - dizia o moço de fala rápida quando não acertavam a mira.



E na cozinha em meio às conversas tive, sem questionar e de repente, o primeiro retorno do meu trabalho: “aquela ali é a Genifer (a senhora apresentava-me à outra recém chegada), ela faz teatro. Se apresentou lá no salão, na sexta. Eu fui ver. Ela é quietinha assim agora, mas lá fez todo mundo rir.. eu mesma ri demais! Até quem não tá a fim de rir, tá meio cansada, dá boas risadas com ela!”. As demais concordaram com as cabeças e com os sorrisos, enquanto eu vibrava por dentro.

Capela São Francisco, RS, 12 de dezembro de 2009



RODEIO - 1º DIA

- Seu Nini, posso tirar uma foto do senhor?
- Só se for de nós dois juntos! - respondeu, rindo.
Estiquei o braço em frente e clic.
- E não é que ela conseguiu mesmo?! - riu mais, chamando os amigos para tirar mais fotos.

Hoje Seu Nini acordou pelas 4h, ouvi os ruídos. Foi arrumar a carne para a grande churrascada. E às 7h estávamos todos prontos, entre a combi e o caminhãozinho do Seu Geraldo em direção a Monte Alegre dos Campos, local do rodeio realizado pela família anualmente.
E entre bois e cavalos para lá e para cá, continuou a chuva. O chão era barro, só, crostas nos sapatos, dedos dos pés escorregando de lama que entrava pelos furos do colorido companheiro de andar. E ainda assim, com chuva e vento, o rodeio estava em uma organização só!

De um lado os bois e vacas a serem laçados, ali os peões que já participaram, lá o júri, em cima a copa, lanches, bebidas, e ali embaixo uma espécie de “sede para as prendas, prendinhas e senhoras, nossas queridas companheiras, sede esta com banheiro próprio” - anunciava o anunciante.


Sim, aqui há divisão bem clara de homens e mulheres. Por que não tem mulheres que laçam? - perguntei para uma senhora. Que tem, tem - disse - mas são bem poucas. A gente não gosta, não acha interesse..
As mulheres são responsáveis pela comida, pelos lanches, grande parte das vezes pelo cuidar das crianças e, depois, pela limpeza das roupas repletas de barro dos maridos. E limpeza dos talheres, chãos e afins. Eu, para mim, estranho e tenho o impulso de dizer não, assim não pode ser. Mas elas não reclamam. Na cozinha há sempre cucas, doces e conversas animadas. É quando se reúnem, nos rodeios, as famílias distantes, as amigas, ali na cozinha. Há como um acordo para que assim seja, cada grupo com suas tarefas, homens nisto, mulheres naquilo, como se tivesse havido um tempo em que tudo teve de ser definido, organizado, e ambas as partes preferiram assim - é o que parece, não digo que é o que foi. Aqui - na terra onde estou - há sempre trabalho. No parreiral, com o gado, os porcos, ameixas, nas casas. Os homens são todos fortes por ‘pegar pesado’ na roça, chão onde, plantando, quase tudo dá. As mulheres, por sua vez, ‘pegam pesado’ em casa, comida para muitos, limpeza. Não há ou há poucos que viajam em busca de trabalho, pois aqui trabalho não falta. “Só não trabalha quem não quer” - disse-me Dalvi dias desses. Mas é pesado, é pesado!

Dizem que os gaúchos são machistas. Não me atrevo a defender generalizações, já disse no último texto, para nenhum dos lados. Mas vejo o carinho que têm pelas mulheres, sabem que são essenciais, e na maioria das vezes as tratam bem, com cuidados. Se há a manutenção destas diferenças é porque a elas também agrada, ao menos é o que parece, aqui. Ou aceitam por tradição? Não sei. Contudo parece-me um acordo mútuo e tranqüilo.




E sempre há as exceções para manutenção das regras: mulheres que não aceitam, ficam em casa e não lavam uma só bombacha ou bota, homens que limpam a cozinha. Há de tudo, e sempre há de haver.

Em chuva, o frio aqui incendeia a alma. Congelando fiquei, porque desacostumei com o gelo do tempo, e passei a maior parte do dia me encolhendo em cantos tentando aquecer meu corpo magro. Fui para perto da churrasqueira grande com espetos numerados. E fiz com a boca ar frio para presentear a ponta dos dedos.
À noite Dona Lita esquentou a casa com o fogão a lenha. Leite quente, café, pastéis. Na casa são sete, entre vô e vó, dois filhos, uma nora e duas netas. Hoje estamos em onze: mais uma nora, sua mãe e irmã, e eu. Há muita generosidade nesta grande família, fila do banheiro, horários de cada um, respeito pelo espaço do outro. E, por haver muito a fazer, há muito com o que se preocupar, não são os momentos breves de encontros familiares na casa que geram discussão. (O trabalho não é, então, parceiro da união?)