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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Capela São Francisco, RS, 16 de dezembro de 2009

PALHAÇAR


Hoje aconteceu algo incrível, destas coisas que acontecem só quando se está à beira de precipícios.
Marcamos apresentação, a segunda por aqui. No salão, como a primeira. No entanto com menos divulgação, já que permaneci mais nesta casa de sete pessoas que ao redor, pois há muito a se conhecer e fazer por aqui. Avisamos aos que chegavam, aos que passavam, apenas isto. E, depois destes últimos dias de sol, hoje choveu novamente pouco antes do horário marcado de apresentação, próximo das 21h.
Antes de me arrumar estava por demais tranquila, algo que, d’outras vezes que aconteceu, sempre teve má resultado: achando estar bem preparada, a apresentação era uma grande porcaria, sem trocas com o público. Mas hoje pensei quero que seja diferente, e corri pelas ruas escuras de palhaça embaixo de chuva para buscar energia para começar.

Chegando no salão, umas dez pessoas. Ai. Meu corpo gelou. Lembrei-me das apresentações anteriores para poucas pessoas, das repetições, do não conseguir dialogar, trocar, reagir e encarar os poucos como poucos. E em minha cabeça houve a reação: vou fazer para essas dez, exclusivo, posso me aproveitar disto. Irei tratá-los como únicos. E foi a melhor de todas as decisões que tomei.

Olhei os rostos e, brincando, descobri ser só umas três pessoas que não haviam assistido da outra vez. Chegaram Dona Lita, Tânia e Seu Nini, uma surpresa para mim, achei que tinham ido dormir após um dia inteiro, desde às 4h, de correrias e limpezas. E mais algumas pessoas que também já haviam assistido, totalizando cerca de 17 pessoas no salão. Comigo, comigo.

A apresentação foi só improvisos sobre situações do momento, e os números apenas anteparo. Mudei números de lugar, cortei parte de outros, pausava a música para aproveitar os instantes.

Atrevi-me a chamar Seu Nini para me ajudar no número do ovo, em que o ajudante, após um longo ‘preparo ridículo’ para tal, joga ao alto um ovo de verdade que pego e, pelos aplausos, acabo quebrando em mim. E ele veio tão prontamente que logo vi ser esta uma escolha das melhores. E o ‘preparo’ foi dos mais entregues que vi, o corpo de Seu Nini se contorcia com sons dos mais estranhos, e engraçados, alegres. Eu ria junto. E a galinha que fica sem cabeça. E até o ovo que caiu no chão sem que eu conseguisse pegá-lo, fazendo da madeira uma poça amarela, tudo coberto de sorrisos nossos.

O boneco também, senti uma harmonia como nunca com o público nesse animar compartilhado.
No entanto, o mais emocionante para mim ainda estava por vir. E veio depois do término, tendo eu agradecido a todos, dinheiro no chapéu, obrigado e boa noite. Mas não se moveram. Sentados em silêncio continuavam me olhando, até que, após um longo tempo de grilos, Dona Lita falou não queremos ir embora. Queremos ficar mais contigo. Eu recoloquei o nariz e disse então tá, sentada à beira do palco que quase não havia usado para ficar mais perto deles e delas. E ali, assim, aconteceu de tudo, danças, doces brincadeiras, com e sem falas, em tudo havia vida. Arrisco a confessar: dos melhores momentos que vivi enquanto palhaça. Em silêncio pouco depois agradecia a cada um e uma lá presentes por me permitirem viver esse momento, pra mim, tão cheio de magia. E agradeci a mim mesma por ter feito tantas saídas improvisadas antes de montar o espetáculo, saídas estas onde o único intuito era trocar com as pessoas e me divertir com o cotidiano, fazendo dele possibilidade risível de vida. Percebi que, sem este suporte e sem os mestres que tive, seria este um momento desastroso. Mas não foi, mas não foi.

Ali, no salão da Capela São Francisco, havia a troca com uma intensidade tão forte e viva que creio que jamais imaginarão, os e as que lá estiveram, o quanto este contato me deixou mexida. Foram momentos ímpares e que jamais haverei de esquecer. Havia confiança e respeito de todos os lados, e risos prolongados ecoando no grande salão. Havia vontade conjunta de lá estar, e felicidade que brota junto a grandes paixões. Momentos tão repletos de presente que o passado anda vivo em minha memória enquanto escrevo, galopando entre tudo que fui e tudo que esta experiência me permite ser.

Voltamos para casa juntos, Vitória agarrada em meu braço fino. “Quando crescer quero ser igualzinha a você” - disse ela. E pensei em silêncio: “quando crescer quero que todas as apresentações sejam trocas, como esta”.

Aos que lá estiveram agradeço aqui, com carinho tal que as páginas que escrevo não suportam. Aos que estão a me acolher em sua casa e também lá estiveram, Seu Nini, Dona Lita, Tânia, Vitória e Marina, não sabem o que significou para mim a presença, lá, de vocês. Possivelmente este rabiscar em caderno amarelo não chegará a muitos olhos, dificilmente aos seus. Mas o escrever é também oração, é também vibração, é pulsação de energias boas, e quero escrever seus nomes como forma de abraçar.



3 comentários:

Angela disse...

Emocionante!

Pimentão e Abobrinha disse...

Eu quero te abraçar Genifer!

Dart Araújo disse...

Muito lindo Genifer....linda!lindo...