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terça-feira, 17 de novembro de 2009

São Paulo, SP, 11 de novembro de 2009

APAGÃO EM SÃO PAULO, VISÕES DO ESCURO




Ontem estávamos em casa, sairemos às 22h e 15min, dá tempo de chegar, comprar o pequenino papel que deixa-me ir e de nos despedirmos. Ontem era dia de partida. Eram 22h 12min, tia Angela colocava os sapatos enquanto eu fechava a mochila, pronta para colocar nas costas. Pegaríamos o elevador, estamos no sexto andar, garagem, iríamos para rodoviária de carro. Se eu fosse de metrô provavelmente estaria dentro do mesmo àquela hora, sairia às 22h, tempo de andar.
22 horas e 14 minutos no relógio do microondas, olhei para ele e a luz começou a piscar. Olhei para cima, problema na tomada, o que há? Tudo se apagou.
Ficamos no escuro. Parada algum tempo à espera de uma solução imediata fiquei. Pouco depois pegava a lanterna deixada em local fácil para possível necessidade. E fui ao encontro dos tios e do cachorro, Boni, que ainda não apresentei, mas que sempre estivera presente.
Passamos muito tempo assim, creio que duas horas, mas os ponteiros correm diferente quando se está à espera.

Uma espécie de caos, não víamos o que nos rodeava, não sabíamos do que se tratava exatamente, esperávamos notícias dos telefones mudos. Soubemos por notícias de Salvador que havia muitos locais assim, e nos tornávamos cegos com nossa própria alienação – nada sabíamos considerando aquilo que sempre é se possível saber, com tantos meios de comunicação e tecnologia disponíveis.
Acompanhei de perto a preocupação dos pais pelo filho que havia saído – sim, há um filho por aqui – e não se tinha notícias; acompanhei de perto suposições de quem tenta ver através de uma visão imaginada, irreal ou restrita como toda visão.
Lembrei-me de sonhos passados. São os meus piores pesadelos, e os tenho com frequência. Acordo assustada sempre, a lembrar: eu tentando abrir os olhos e não conseguindo, tendo vestígios de visão e esfregando as vistas, em algum espaço/tempo determinado e com pessoas queridas ou não em volta, geralmente estes correndo, sem
que eu consiga alcançá-los ou acompanhar o que me mostram. Respiração forte me corrompe os lábios, penso acorde, acorde, sei que é sonho o desespero, mas em sonho temo ser verdade.
Aqui os sonhos e pesadelos vieram todos vestidos do negro da noite.

Agora assisti ao documentário ‘Janela da Alma’, enquanto espero a minha caixinha de som ficar pronta do conserto, que descobri ontem à noite, tentando sintonizar uma rádio, que não estava carregada,carregador queimou. Imagino se não tivesse visto, se viajasse com ela assim, chegando na praça do povoado, arrumando tudo, ligo o som e o silêncio me gelando a alma, deixando-me incapaz de apresentar. Sempre se pensa o bom do ruim, nem sei se é conformismo ou busca eterna, sei que pensei que bom que descobri aqui, pois arrumo antes de viajar.

Sim, mas não é disto que falava, era do documentário que vi antes do prato de macarrão. E lá havia muitos que falavam, relatos interessantes, e dentre eles um homem, meia idade, cineasta que não me lembro o nome. Mas posso defini-lo com outras características que não a que lhe fora dada ao nascer: ele era grisalho, pele branca, quando falava viam-se os dentes de baixo um pouco amarelados, barba e bigodes feitos, duas entradas no topo do rosto, titubeava, medindo as palavras em silêncios breves, não falava o português. Não guarda, ele, nessas características um nome inteiro? Era ele, enfim. E tinha óculos, contava que já usara lentes de contato, mas mesmo com elas colocava os óculos, fazia questão. Costume? Não. Ele precisava de uma moldura no olhar, achava demais o que via sem a armação, queria e necessitava selecionar mais o visto. Pensei em mim, como se faz quando se olha para fora. E no que escrevo dos lugares e pessoas, escolhas de um olhar que tanto vê, por fora e por dentro, e seleciona. Do olhar que se deturpa vendo as costas do que se enxerga; da visão que é sempre, e antes de tudo, suposição.

Ontem, no escuro, com a lanterna entre os dedos e a espiar as pequeninas luzes tilintando e fugindo pelas janelas dos prédios vizinhos, parecia que enxergava melhor, que havia intervalo para supor. Como dito no filme/documentário, um espaço para a imaginação tecer seus fios, criando novas histórias tão reais e irreais quanto as vividas.
Penso se o que escrevo é escuridão, ou fatias de luz a se alastrar para os prédios vizinhos. E não há nada de certezas em meus olhos cegos que tudo veem. Ou tentam, ou tentam.



RODOVIÁRIA DE SÃO PAULO (mesmo dia)

Experimentei, agora a pouco e por um longo tempo que se alastra, uma sensação estranha, que não esperava sentir em tal proporção. Tive vergonha de mim. De ter tanto onde estava.
Assistindo uma grande televisão com todos os recursos possíveis, comendo uma comida deliciosa, sentada em um excelente sofá, vendo um programa de culinária e cultura , discutindo sabores e despreocupada, me encolhi. Sabia que nada daquilo era meu. Da mesma forma, sabia que essas pessoas daqui tem o quê tem por mérito, trabalho duro e suado, nenhum berço de ouro e jamais ‘por cima de ninguém’. Mas também sabia e vi que há muito trabalho duro e suado nos locais onde passei, e que Dona Diu jamais conseguiria, por mais esforço que tivesse em sua terra, obter o que aqui há. Para ela, a glória foi conseguir água para beber e tomar banho, e dar de comer aos filhos.

Nunca gostei muito desse papo comunista. Aliás, todos os ‘istas’ me repelem, com suas verdades serradas. Também nunca fui revolucionária, e se participei de algum Grêmio de colégio ou D.A. foi para realizar eventos, peças de teatro ou festas. Nunca passou disto. Não sou eu quem levanta o braço direito com a mão apertada a berrar pelas ruas. E creio que não o farei. Mas mexeu comigo o que vi, e agora percebo.
Nem sei o quê fazer com isso, esse sentimento que me serra a garganta, só relato o que achava que não faria de maneira nenhuma nessas brancas páginas.

Mas o quê há?

O que tenho eu a fazer, ou pensar, ou ser?

UM POUCO DAS ENTRELINHAS DO VIVIDO

Há tanto que vivo e não escrevo, que não há tempo, nem memória, nem caneta por fora e por dentro. Muitos aprendizados, pensamentos passantes esclarecendo e escurecendo texturas, muito a ser contado e contaminado de versão. Mas não há como.

Queria falar dos conhecimentos do tio Mário, sobre a língua tupi guarani, o ‘PARA’, o ‘GUAY’, o ‘NAÍBA’. Queria falar do pequenino Anis da tia Angela, usado na receita para combater a gripe H1N1, levo comigo (e sei de alguém que vai adorar isso). Das receitas da tia, dos padres da capela que visitamos, do Tuco, o filho que nem borrei palavras, que me levou para uma cobertura com vista panorâmica para o mar de prédios. Do Boni, cachorro destruidor de almofadas. Da apresentação do Mundo Miúdo em São Paulo, para pessoas especiais. Tanto, tanto. Queria falar mais dos sentimentos que tenho e não entendo, do que me é confuso e breve ou do que levo comigo sem saber. Mas hão de ser ditos? Deve aparecer, para alguém, toda a imensidão da lua, suas costas escondidas? Consegue, ela própria, enxergá-las?

Um comentário:

Ricardo disse...

Ei moça, to te acompanhando por aqui!! Te desejo toda sorte nessa sua viagem fantástica. força !

bjão!

Ricardo Borges(Fiasco)

PS: o nome do cara do documentario é Wim Wenders(cineasta).